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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sex and the City: The Movie, de Michael Patrick King


Não sei ainda se este desfecho foi assim tão conclusivo, admito. Tornei-me ao longo dos tempos uma fã da série, mas assim que soube que o final nos iria ser trazido por salas de cinema fez-me erguer o sobrolho.

Sem se preocupar demasiado em deliciar os fãs, a preocupação toda foi dirigida à audiência que não vê a série. Demasiado interessado em dar informação da vida das quatro amigas até à data, o filme inundou-se em consumismo e observações que não sendo completamente desnecessários nunca deveriam ter saído de segundo plano. A amizade, o envelhecimento e o amor, sempre presentes, esses sim deveriam ter sido elevados à imortalidade que merecem e que no fundo a série sempre nos habituou.

Não era um projecto fundamental, por assim dizer. E isso de certa forma chateia-me. Mas há aquela fronteira que une o mundo feminino com a quase necessidade de sobrevivência, e no fundo Sex and the City sempre foi acerca disso mesmo: o feminismo a sobreviver lado a lado com o amor e a amizade, o profissionalismo e o êxito. O que não o faz ser apenas dirigido a mulheres, mas a homens também.

No fundo é uma tentativa egocêntrica de dar um novo pulso a um conto de fadas, que tremendamente superficial, torna-se também perfeitamente plausível. Sem desfiar tentativas de torná-lo obrigatório e incontornável, Michael Patrick King foca-se apenas em dar-nos cinco episódios que possam por um ponto final nesta nossa sede de glamour, amizade e claro, CarrieSamanthaCharlotteMiranda-ó-adoração.

Sex and the City, US, 2008. Realização: Michael Patrick King. Fotografia: John Thomas. Com: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon. ***

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Jumper, de Doug Liman


A visão com que ficamos quando os créditos finais se extinguem, é que durante todo o filme não nos apercebemos realmente do que é importante reter. À medida que as imagens surgem e os sons ensurdecedores embatem no entendimento, a compreensão vai-se esgotando.

Acho que acima de tudo Jumper perde-se na tentativa de se tornar único, ficando pelo caminho e esquecendo-se de si mesmo como ideia que poderia até resultar magistralmente bem. Com nenhuma informação e tão poucas respostas aos porquê? que vai emitindo à medida que a intensidade explode, sobra apenas Jamie Bell.

Mas há dias assim, em que o intelecto precisa de descanso absoluto, e as rajadas de cores e confusão subsistem como um autêntico fôlego.

Aceitável. Apenas quando há necessidade de afogar as exigências em entretenimento. A pergunta agora é: que anda a fazer Liman, e o que deu a Jim Uhls?

Jumper, USA, 2008. Realização: Doug Liman. Fotografia: Barry Peterson. Com: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Diane Lane, Jamie Bell, Rachel Bilson. **

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Александра, de Aleksandr Sokurov

Parece que tudo é fugaz, que nada durará. A imortalidade desvanece-se num moralismo maior que a vida, mas ainda assim tão bonito como a vida o é. Começou por me mutilar, mas quando cheguei ao coração do filme, o filme chegou ao meu, trespassando-o. Uma banda sonora eloquente e que lhe cabe na perfeição, tornam Aleksandra Nikolaevna numa musa sem a marginalizar de exageros e marcas fúteis.

Feito de uma beleza tão pura e súbtil, entendo porque me encantei, mesmo que tão tardiamente por este projecto Russo. Sem recorrer a liberdades de quem conhece o cinema com a palma da mão, Sokurov desfia a sua história num relato sincero e sereno, solidário e imortal. Porque há decididamente uma mortalidade aderente, mas há fôlego do que é eterno, há um descobrir sem esforço do coração e alma humanas sem recorrer ao melancolismo e à extravagância. A solidão e o amor, a perda e mutilação da verdade e da mentira são traços que unem o contorno esotérico de uma obra de arte perfeitamente imperdível.

Александра, Russia, 2008. Realização: Aleksandr Sokurov. Fotografia: Aleksandr Burov. Com: Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov, Raisa Gichaeva. ****

What Happens in Vegas, de Tom Vaughan


Mais uma vez é preciso ser tolerante, e What Happens in Vegas acaba por ser tolerável na sua fórmula e na procura de um público alvo um pouco diferente. No entanto a narrativa arrasta-se para se tornar incontornavelmente seca, e o acabamento demasiado familar.

Acredito seriamente, mesmo que nem sempre o aceite, que cinema assim vai sempre existir, como que um subgénero de cinema mais fraco, mas que acaba ainda por entreter na maioria das vezes.

O elenco, sóbrio mas tão pouco convincente, maneja o pouco de atractivo que o projecto de Tom Vaughan tem, sem conseguir articular a química para a qual as personagens foram criadas. Ainda assim há qualquer coisa em What Happens in Vegas que o distancia das outras silly romantic comedies que sairam recentemente. Há sobretudo um divertimento plausível e sincero no seu desenvolvimento, e ao fim de uma hora e meia não saímos propriamente com o sentimento de tempo perdido. Porque no fundo sabemos que filmes assim vão sempre existir; de pouca mestria mas de divertimento quase seguro.

What Happens in Vegas, USA, 2008. Realização: Tom Vaughan. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Com: Cameron Diaz, Ashton Kutcher, Rob Corddry. **

terça-feira, 17 de junho de 2008

Fool's Gold, de Andy Tennant

Sem se querer fazer muito, não se faz muito. Acredito neste lema, como se fosse antes um dilema, uma maldição. O realizador de Hitch, Andy Tennant, aposta agora numa aventura de caça ao tesouro, sem alcançar espaço para respeito. Um desenlace aceitável mas não memorável, transforma Fool's Gold em apenas mais um.

Com um reportório de filmes pouco importantes, Tennant continua sem alcançar um patamar surpreendente ou entusiasmante. Dentro do seu leque de projectos, retirando-se Anna and the King, descobrem-se os restantes tímidos, baços e sem brilho sobrevivente para que se tente arranjar espaço na prateleira. Fui, no entanto, entretida alguns escassos momentos, e algumas gargalhadas foram soltas no processo. Mas como sempre, eu aceito tudo, vindo de onde vier.

Sem se conseguir aproximar do romantismo que procura, Fool's Gold emana sentimentos constantes de descontracção bruta na tentativa de superar qualquer expectativa. Com uma aura fria e desinteressante, há uma sombra constante que não deixa espaço para entretenimento genuíno.

Fool's Gold, USA, 2008. Realização: Andy Tennant. Fotografia: Dun Burgess. Com: Matthew McConaughey, Kate Hudson, Donald Sutherland, Alexis Dziena, Ewen Bremner. **

sábado, 14 de junho de 2008

The Happening, de M. Night Shyamalan

Acho que o verdadeiro problema de Shyamalan, um dos meus realizadores de eleição diga-se, é a habituação que criou a trazer-nos bom cinema. Cinema que nunca deixando de ser pessoal, é quase na sua maioria aceite apenas por determinadas pessoas. Mas é sempre um risco enorme esperar-se projectos magníficos com o tipo de cinema de Shyamalan, ou pelo menos projectos que não podem desiludir.

The Happening teve uma publicidade cuidada e intensiva, numa altura em que estão tantos outros projectos tão esperados ao dobrar da esquina. Depois do fracasso a nível de bilheteiras que foi The Village e Lady in the Water, mas com os admiradores a crescerem por detrás desses números, Shyamalan tornou-se num realizador difícil de classificar.

Conhecido pelos twists e pela inteligência dos argumentos, tanto como a sua originalidade, Shyamalan desfia este The Happening de maneira mais serena, numa caminhada breve pela moralidade e sobrevivência humanas.

Com o revoltar da natureza a sobrevivência humana está por um fio, e ao invés de nos mantermos juntos, a descoberta é que sozinhos sobreviveremos mais tempo. Depois deste esclarecimento, Shyamalan pouco ou nada mais nos dá. As personagens tão pouco desdobradas, e o relacionamento entre elas tão seco e sem dimensão, faz com que o mais importante fique pelo caminho.

Mas há sempre magia nos planos e nos movimentos de câmara, há sempre uma magnificência na relação da câmara com o retratado, e há sempre uma imagem limpa e pura no cinema de Shyamalan. Que não deixa dúvidas para a qualidade dos seus projectos, ou para o respeito que se tem de se ter ao se falar deles.

No final dei por mim a chegar a casa, e a abraçar todas as árvores do meu lado do passeio, e a pedir desculpa por nós sermos como somos, mas acima de tudo por ser a arte que nos faz aperceber dos erros e não a memória do que foi e já não será. Penso apenas que este é o seu olhar crítico, que o poder e a mestria de trabalhar com a câmara salvam e entregam. Mas talvez lhe tenha faltado o sexto sentido desta vez, para nos trazer um projecto brutalmente brilhante e único a que nos tem habituado.

The Happening, USA/India, 2008. Realização: M. Night Shyamalan. Fotografia: Tak Fujimoto. Com: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, Betty Buckley, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez. ***

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reservation Road, de Terry George


Nada tenho contra filmes que pecam um pouco na originalidade, mas tem de ser vislumbrado um certo respeito pelo projecto que se desenvolve, e uma mestria nesse desenvolvimento.

Reservation Road desfia-se na pele dos profissionais que participam, mas não se desfia incondicionalmente na tentativa de fazer um projecto memorável, que acabou por me incomodar.

Com participação exepcional de Joaquin Phoenix, Reservation Road acabou por ter um peso maior, mas pouco arrebatador. O valor moral do argumento é significativo, mas não memorável, e a tentativa de trazer algo novo é nula.


Ao longo do filme, nada nem ninguém são postos à prova, e foi com alguma tristeza que abandonei o filme, ao seu tom melancólico que acabou por não convencer ninguém. Com um desfecho desnecessário, e com os habituais clichés, um drama tão prometedor transformou-se num triller que não conseguiu marcar. Terry George, que depois do fantástico Hotel Rwanda não deu dimensão nem direccionou o projecto prometedor que tinha em mãos, deixou-se ficar com uma mão cheia de fantásticos actores, e com um filme que não sendo tremendamente mau, não deixa de poder ser esquecido. No entanto há vislumbre da alma humana, e dos valores mais sombrios da humanidade, e isso para mim acaba por ser, de certa forma, suficiente.


Reservation Road, USA, 2008. Realização: Terry George. Fotografia: John Lindley. Com: Joaquin Phoenix, Jennifer Connelly, Mark Ruffalo, Mira Sorvino, Elle Fanning. ***

sábado, 31 de maio de 2008

Blade Runner- The Final Cut, de Ridley Scott

Ainda não me consegui aperceber plenamente do impacto que Blade Runner no grande ecrã teve em mim. Acho tão simples a maneira como abraçei esta ida ao cinema, e foi ainda assim como a primeira vez que o cinema se embrenhou na minha alma. Tão pouco mais consigo dizer, esta forma como o cinema está em mim, ver obras tão magistralmente reconhecidas e descobri-las tão bonitas. Final cut.


Blade Runner Final Cut, USA/Singapore, 2008. Realização: Ridley Scott. Fotografia: Jordan Cronenweth. Com: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah. *****

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Nesfarsit, de Cristian Nemescu


Ao saber que um filme está inacabado e ainda assim se dispendiou horas de edição e pós-produção foi uma coisa que me fez mudar a posição na cadeira, uma postura de maior atenção.

O pensamento que mais me assolou a alma quando abandonei a sala de cinema foi que gostaria de ter passado por outras obras de Nemescu antes de me ter entregue a este California Dreamin'. Mas não o fiz, e pela primeira vez em muito tempo fui para o cinema com o propósito de ver um filme do qual nada sabia. O plot era-me desconhecido, apenas sabia que o filme era Europeu.

O filme Romeno, em que o inglês entra de rompante, é magnífico em muitas coisas, e pobre em tantas outras. Mas há coisas deliciosas em cada frame, a sua nudez é fantástica e é isso que cria os sentimentos que nos absorvem em cada cena, em cada minuto.

Nemescu, falecido em 2006, não acabou o que veio a ser o seu último projecto. Não é um projecto acabado, tem as imperfeições de um filme que não acabou por ter o empenho final, e portanto há falhas a nível de ligação entre cenas e personagens, há buracos no entendimento. E esses acabam por ser o que elevam o projecto a uma outra dimensão, capaz de o imortalizar.

É bonito ver que a vida de alguém, neste caso de Cristian Nemescu, foi relembrada no grande ecrã. Foi uma homenagem da qual não me irei esquecer, e decerto que amigos e conhecidos de Nemescu a vão mesmo celebrar em cada memória que California Dreamin' retoma, até para nós que vemos.

California Dreamin' é um projecto simples. As perspectivas são sem sombra de dúvida pessoais, mas no entanto é um projecto que reflecte talento e respeito à história que conta. É um retrato íntimo, um retomar aos medos da guerra sem o tornar aterrador. É a absorção individual de um momento na história que não deixa marcas no que foi, mas no que continua a ser. Os actores demonstram um gosto enorme de serem esse mesmo reflexo, em particular Maria Dinulescu e Razvan Vasilescu.

É no fim um projecto simples, que inacabado como o título nos avisa, parece completo em todos os sentidos. California Dreamin' acaba por ser um monumento profundamente emocional, com racionalidade constante, e uma fúria e paixão secretas bem escondidas debaixo da sua derme.

No fim é claro, California Dreamin' está constantemente num jogo connosco. Provoca-nos e deixa-nos ir, e de repente chama-nos a atenção para emoções que se perderam na memória. Há uma clara explosão de vida em cada silêncio, e uma entrega constante a um projecto que sendo cruel, duro e negro é ao mesmo tempo memorável, honorífico e eterno.

"All the leaves are brown, and the sky is grey. I've been for a walk on a winter's day. I'd be safe and warm if I was in L.A. California Dreamin' on such a winter's day."

Nersfarsit, Romania, 2007. Realização: Cristian Nemescu. Fotografia: Liviu Marghidan. Com: Armand Assante, Jamie Elman, Razvan Vasilescu, Maria Dinulescu. ****

segunda-feira, 7 de abril de 2008

I'm Not There, de Todd Haynes

Seis diferentes personagens dedilham a vida de um dos ícons mais marcantes das últimas décadas, com um êxito que me prendeu como há muito uma biografia não o conseguia fazer.

Sendo representando no ano de 1959 pelo jovem Marcus Carl Franklin na pele de Woody Guthrie, o Dylan dos anos 60 por Christian Bale como Jack Rollins que é ele representado por um actor de Hollywood chamado Robbie Clark representado por Heath Ledger (que é Dylan no começo dos anos 70), e Richard Gere representa o fora de lei Billy the Kid, Dylan é capaz de quase alcançar a imortalidade.

Mas as personagens mais marcantes e onde o foco recai são representadas por Ben Whishaw e Cate Blanchett. O primeiro, Arthur Rimbaud o poeta, vai respondendo a perguntas que lhe fazem e que respondem também, muitas vezes, aquelas que nos vão bombardeando na alma. Cate Blanchett por sua vez é Jude Quinn, um músico que altera o seu género musical que o lançou para o sucesso, do folk para uma onda mais eléctrica, mais rock.

O facto de terem sido 6 personagens a representar uma ascensão magnífica, não é realmente o mais impressionante, mas sim o facto de terem sido apenas escolhidas seis. Com um maneira tão nata de nos fazer sentir que o aprisionamento emocional, ou a liberdade são bens que se tornam susceptíveis a mudanças sem sentido, Todd Haynes traz-nos um projecto que marca e que é por assim dizer quase imprescindível.

O filme, abraçando um adaptar de vários géneros cinematográficos como westerns, o eterno preto e branco e o documentário, vai deslizando entre a inovação e o classicismo, entre uma energia constante e um desenlace prometedor.

Foi sobretudo o visual que me prendeu, a representação de Whishaw e Blanchett, uma despedida a Ledger, e um primor de banda sonora. No entanto, há coisas que não se escrevem, vêm-se. E é por isso que respeito tanto o cinema como respeito uma obra-prima literária. E o respeito que fica de uma obra biográfica deste calibre é ao mesmo tempo selvagem e terna.

Para fans de Dylan ou não, é pelo menos uma certeza de começar um caminho de respeito por Haynes, e todos os que tentaram imortalizar Dylan no grande ecrã e no nosso olhar, ouvidos e sorriso.


"There he lies. God rest his soul, and his rudeness. A devouring public can now share the remains of his sickness, and his phone numbers. There he lay: poet, prophet, outlaw, fake, star of electricity. Nailed by a peeping tom, who would soon discover even the ghost was more than one person."


I'm Not there, USA/Germany, 2007. Realização: Todd Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Com: Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger. ****



quarta-feira, 26 de março de 2008

The Spiderwick Chronicles, de Mark Waters

The Spiderwick Chronicles surgiu para mim na altura ideal. Na altura em que nos vamos habituando a cinema mais independente, mais simples, a um cinema mais leve, o género fantástico e a adaptação de géneros literários volta, e volta bem.

O público alvo é desde logo perceptível, e é esse o factor mais aliciante; uma aventura que é fantástica para os mais novos, sem ser impossível que os pais se sintam também invocados pelo total espírito do filme.

Normalmente não gosto de ver um filme a pensar que não é para mim. Não o fiz, mas desde logo o levei de ânimo leve e isso fez-me acarinhá-lo mais, acabando por ter a sensação que poderia passar mais uma hora sem que me chateasse.

Apesar de não ser um épico, é um bom regresso ao género, um regresso marcante, e um bom apelo ao que o cinema fantástico desperta em cada um. É rápido e terno, assustador por vezes, sem ser arrepiante. É um bom regresso à infância dentro de nós, e um pegar em efeitos especiais que, sem ser totalmente inédito, é o que chega para que o mundo de Spiderwick seja tão credível. Nem subconscientemente nos apercebemos que as criaturas fantásticas não estão lá.

É óbvia a crença que Mark Waters tem no seu projecto, e foi provavelmente por essa mesma razão que The Spiderwick Cronicles conseguiu ser tão bem sucedido. Depois de se dirigir a um público adolescente com comédias como Freaky Friday e Mean Girls, Waters entrou no universo de infâncias problemáticas e de metáforas e paralelismos constantes, tal como em Just Like Heaven.

É verdade que os efeitos especiais pesam no valor da aventura, que o elenco entrega uma aura magnífica e poderosa, em especial Freddie Highmore, que tem um sexto sentido qualquer para escolher projectos de valor, mas é no entanto a fé que se sente que vem por detrás das câmaras. Não é um magnífico regresso ao género, mas sabe bem.

"When I was captivated by all the mystical creatures I was seeing, I missed the one I already had."

The Spiderwick Chronicles, USA, 2008. Realização: Mark Waters. Fotografia: Michael Kahn. Com: Freddie Highmore, Sarah Bolger, Nick Nolte, Mary-Louise Parker. ***

terça-feira, 18 de março de 2008

Sukkar banat, de Nadine Labaki



Caramel relembrou-me que o cinema também é bonito simples, como a vida o é. Não há acerca de Caramel um único ponto que necessite tradução, há uma canção realista e uma mensagem genuína, e isso é a tudo o que Caramel se resume.

Um vaivém diário de vidas que se cruzam e, como as nossas, chocam umas com as outras sem que por vezes haja uma percepção disso mesmo, pelo menos instântanea. A construção das personagens não é pesada, na verdade é leve e fá-las resultar logo que surgem ao olhar. São bonitas, as personagens, e sabem-no. Não há esforço, como já disse é genuíno.

Assim Caramel é o relato de muitas vidas como uma só. Um salão de beleza é o limbo onde a narrativa se vai desfiando, e o que cada uma alcança deve-se sobretudo à sinceridade que portam quanto a uma vida que proclamam maior que elas.

Numa rua onde, à partida haverá uma associação à escuridão da violência e da insegurança, do que a mulheres a atravessar a estrada com pernas altas e vestidos pelos joelhos, prontas a dedicar mais um dos seus dias pacíficos na descoberta da beleza, Caramel é bem sucedido a levantar questões que de irónicas se revestem de um toque humorístico fantástico.

Não me cansei nem por um só segundo. Com uma fotografia com um toque que se sente ser pessoal, e que é também extremamente bonita e quente, acabamos por sorrir compulsivamente durante grande parte dos minutos totais do filme. A música desflorou um significado único, e entregou a certeza de que, por vezes, um projecto internacional faz-nos sentir mais em casa do que um projecto nosso. Fico feliz por pensar que o cinema não tem barreiras, desde que tenha coração.


Sukkar banat, France/Lebanon, 2007. Realização: Nadine Labaki. Fotografia: Yves Sehnaoui. Com: Nadine Labaki, Yasmine Elmasri, Joanna Moukarzel. ****

sábado, 15 de março de 2008

La Môme, de Olivier Dahan

Escrever sobre La Môme, ou mais frequente reconhecido como La Vie en Rose, vai-me ser complicado. Mais do que o habitual.

Ainda não consegui desenvasilhar a minha opinão sincera sobre esta obra de Dahan, porque ainda não me apercebi se gostei dela por tudo ou pela magnífica, já nem sendo necessário referir, representação de Marion Cotillard, e apenas por ela.

La Môme, como biografia que é, não apresenta grande versatilidade porque há um fim que já se conhece, e um desfiar de acontecimentos que, se não sabidos de cor, são reconhecidos por grande parte da plateia, fans de Piaf ou não.

Enquanto retrato, La Môme, é perfeito. Enquanto projecto cinematográfico já sinto algumas saliências, que não sendo tão grandes assim, têm um odor a dúvida. Por vezes confuso, o filme aconchega planos sinceros e realistas, mas há uma dor sempre presente que penso não ter ajudado à descoberta de uma vida que sempre se registou como magnífica.

Assim sendo, pelos limites oferecidos, Marion Cotillard fez a representação de uma vida. Mas Dahan, não apresentou um projecto que marque a alma pela positiva. Em todo o filme senti morte, pena, e tristeza a formar-se dentro de mim, e apesar de acreditar que tudo isso fez parte da lenda que Edith Piaf se foi tornando desde as ruas de Paris, até hoje, 45 anos após a sua morte, penso que a obscuridade e a sua alma atrás dos palcos merecia, em homenagem, um pouco mais de luz e a sua voz um pouco mais de omnipresença.

Mas este projecto de ambicioso torna-se magnífico; apesar de ter as suas falhas nem uma foi marcada por Cotillard, que foi merecedora do Oscar sem sombra de dúvida (aliás deveria, se tal fosse possível, ser nomeada por 50 anos pelo seu papel que aqui foi eterno e fantástico). Um pouco mais da era e da cultura em que foi criada poderiam também entregar muito valor ao filme de Olivier Dahan. Mas ele tornou poesia, a alma e vida de uma poeta. E isso importa demasiado.

"Nothing existed before you. It's all gone."

La Môme, France/UK/Czech Republic, 2007. Realização: Olivier Dahan. Fotografia: Tetsuo Nagata. Com: Marion Cottilard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Gérard Depardieu. ****




quarta-feira, 12 de março de 2008

Cloverfield, de Matt Reeves

Cloverfield poderia ser uma enorme metáfora. Numa noite, como tantas outras, um monstro, como Godzilla já o fez há alguns bons anos atrás, ataca Nova Iorque. Com um visual que acaba por ser, apesar de tão realista, extremamente eficaz, é a prova que a geração Youtube se apoderou por sua vez de Hollywood. Como Godzilla, na sua versão dos anos 50 personificava a segunda grande guerra e o terror da bomba atómica, a produção de J.J. deste novo século representa o 11 de Setembro e a guerra que ainda hoje se trava, bem como os fantasmas que ainda hoje assolam tantas almas em todo o mundo.

O retrato do fim do mundo na perspectiva de um grupo de adolescentes, que o registam por mero acaso, é o mais delicioso. É acima de tudo a ideia chave que suporta um projecto ambicioso que resulta de todas as formas possíveis e imaginárias, mesmo admitindo os seus erros que são, na minha opinião, uma mais valia.

Imagino as dificuldades que foram superadas pelo estilo usado e pelas tantas outras milhares que apareceram por essa mesma causa. Mas na verdade Cloverfield tornou-se logo desde os primeiros minutos e desde as primeira explosões um dos meus filmes de terror preferidos e uns dos mais bem sucedidos de sempre.

Na verdade o impacto que Cloverfield teve em mim foi uma experiência única. Nunca tantos batimentos cardíacos em meio minuto me fizeram sorrir como no dia em que me pus numa sala de cinema e experienciei tanta adrenalina, vertigem e acima de tudo inteligência em tornar versáteis características que noutras situações não o seriam nunca. Com o pânico que ouvimos, e acabamos também por ver, durante 90 minutos, a correria e o facto de nem por um momento a câmara estar fixa, os relances de algo sobrenatural a meio metro acima de nós (sim porque nós estamos irrefutavelmente lá), fizeram de Cloverfield uma das melhores aberturas de ano que eu já experienciei cinematográficamente.

Enquanto que muitos poderão achar a experiência angustiante, outros apanharem, como eu li algures "motion sickness", por mais que existam proclamação de desilusão nas opiniões de espectadores em todo o mundo, Cloverfield não será esquecido porque marcou a pele. Quando saí da sala de cinema fiz uma promessa a mim mesma - Nunca mais saias de casa sem a tua máquina de filmar. Nada foi mais assustador que sabermos ver mais que as próprias personagens, não porque isso é o que acontece normalmente em qualquer filme que faça uso de steadicams, mas porque acabamos inevitavelmente por desejar não ver nada como eles, e correr, correr no escuro de um metropolitano que nunca, e mesmo eles o sabem, os (nos) levará para qualquer lugar seguro.

J.J. Abrams apostou como um sábio e Matt Reeves (re)criou terror como um mestre.

"People are gonna want to know... how it all went down."

Cloverfield, USA, 2008. Realização: Matt Reeves. Fotografia: Michael Bonvillain. Com: Michael Stahl-David, Lizzy Caplan, Jessica Lucas, T.J. Miller. ****

segunda-feira, 3 de março de 2008

Le Voyage du Ballon Rouge, de Hsiao-hsien Hou


Durante cento e tal minutos fui assaltada desesperadamente por imagens bonitas da minha infância. Se existem palavras que descrevam o trabalho de Hou, melancolia e nostalgia deverão ser as do topo.

Poderia dizer que uma das características deste projecto que homenageia a curta de Albert Lamorisse, é que este projecto audacioso não é para todos. Mas custa-me dizê-lo porque acho sinceramente que qualquer pessoa encontrará uma qualquer ligação, um desprender impossível de uma obra que é acima de tudo exarcebadamente pessoal.

Para mim, todo a personificação de uma Paris banal, e cansada do tempo, leva a que as imagens que nos chegam aos olhos ganhem perpetuamento constante. Consigo quase ouvi-la respirar que as coisas fugazes são as mais belas, e que a perda nos faz crescer, mas no entanto rejuvenescer.

Perseguido por um balão vermelho (ao contrário do que acontece em Le Ballon Rouge de Lamorisse em que é o rapaz que persegue o balão), o balão vai ganhando um peso crucial. Passa a ser introdução, o clímax e o desenlace de uma obra bonita, que se perde em monotonismo e simplicidades, que nos enchem os olhos de um sorriso sensível mas constante. Na verdade, com sensibilidade, Hou conseguiu erguer um belíssimo conto francês, com a sua alma oriental.

Juliette Binoche, por sua vez não só está encantandora como sempre, como está também magnífica com uma representação arrepiante, que comove. O restante elenco está certo em medida, em alma estão presentes

Assim, um balão vermelho persegue um rapaz, que se deslumbra pelos prazeres da infância, pela perdição de uma vida comum, difícil, e pela simplicidade que um caminho na sombra das ruas consegue entregar desejos a quem se julga ainda imortal. Um quadro, uma irmã, uma pessoa que cuida de nós enquanto a mãe está fora são tudo belezas, mas o filme é todo a leveza de um balão vermelho. E depois disso Hou merece todo o respeito.


Le Voyage du Ballon Rouge, France, 2007. Realização: Hsiao-hsien Hou. Fotografia: Pin Bing Lee. Com: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Fang Song. ****

domingo, 2 de março de 2008

The Darjeeling Limited, de Wes Anderson

The Darjeeling Limited baseou-se em duas coisas fundamentais; o retrato magnificiente de uma Índia e uma construção profunda das personagens, também ela magnificiente. Depois de uma carreira curta como realizador, Wes Anderson entrega-se a um projecto que nos apaixona pela sua simplicidade e diferença.

As texturas, as cores e os diálogos vão construindo um mundo ilimitado de amizade e família, de aprendizagem e silêncios, e acima de tudo de percepção de realidades num mundo que parece afogado em misticismos e contos de fadas. Com paisagens belíssimas, The Darjeeling Limited tornou-se facilmente o meu filme preferido de Wes Anderson desde sempre.

Adrien Brody, Jason Schwartzman e Owen Wilson são magníficos. Na verdade tenho de dar relevo a Wilson por me impressionar bastante com a sua presença, revelando-se um outro actor com novas limitações daquele que nos foi habituando. Com uma procura igual mas levada tão diferentemente, as personagens vão-se perder delas mesmas para encontrar o equilíbrio, a importância da irmandade e no fundo encontrarem-se como um só.

Com uma curta metragem que antecede ao filme, Wes Anderson introduziu o relato que se seguiria, a história intima de um dos irmãos. Com Natalie Portman, os poucos minutos que duraram serviram para que durante a longa conseguíssemos idealizar as opiniões dos irmãos, mas suportar a dor de Schwartzman.

Wes Anderson vai assim desfiando o filme entre tristezas e alegrias, entre um drama sempre presente e situações que se proclamam cómicas, marcam, como já foi pegado em The Life Aquatic With Steve Zissou, a procura incessante de um caminho, de um retorno às coisas puras, de um rumo que os torne mais espirituais, e assim mais unidos. Com uma banda sonora magnífica e um elenco e fotografia quase mágicos, The Darjeeling Limited é um filme bonito que vale a pena ver.

Um retrato de pessoas danificadas com humor e compaixão, levam a que este filme supere uma expectativa inicial. Sem ironia nem máscaras a dor está à vista. Penso que acima de tudo esta é a primeira vez que Anderson o faz, e talvez seja por isso que no fim a única coisa que persiste é um sorriso nos lábios. Sem dúvida alguma que é uma viagem que vale a pena.

"I love the way this country smells. I'll never forget it. It's kind of spicy."


The Darjeeling Limited, USA, 2007. Realização: Wes Anderson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Com: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman. ****

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Gone Baby Gone, de Ben Affleck

Um filme que começa com coração cativa-me quase sempre. Acho que os primeiros minutos que expõem uma premissa são cruciais, dão oportunidade a que haja uma metamorfose mais bonita e consistente, e dão valor ao intimismo que uma obra revela. Gone Baby Gone começa de uma forma bonita, com voz off de uma voz que vai já sendo habitual em produções de valor, e com uma série de planos que envergonhariam os melhores.

A verdade é que Ben Affleck conseguiu um filme neutro mas importante, um retrato habitual de uma sociedade com os valores errados, das brusquidões do coração humano, e das suas mesmas capacidades, necessidades e desejos. Não é o exposto que se sobressai, é ser quem o faz e como o faz.

Casey Affleck, que vai construindo a sua própria escada que o tornará num titã, oferece mais uma vez a potência e impotência que a sua personagem consome, sem nunca vacilar nos sentimentos que oferece. Ed Harris e Morgan Freeman as caras mais conhecidas no novelo que Ben Affleck teceu como forma de retratar a moralidade humana, foram fantásticos, com destaque para Harris. Amy Ryan, única nomeada para um Oscar, no entanto, teve uma oportunidade magnífica de se fazer sentir. E fez. Toda ela é um cena de terror. A simplicidade de ser vulgar tornam-na imortal em Gone Baby Gone, com magnificiência.

Ben Affleck foi assim a maior (e melhor) surpresa dos últimos tempos. A sua mestria atrás das câmaras quase eclipsou as representações a que nos foi habituando ao longo do sua carreira. Não é novo que um actor percorra um caminho que o leva à realização, mas é menos corrente que este, na sua estreia, se baptize com um filme que se torna desde logo uma parte importante do cinema moderno.

Se ao longo do filme, confusão apareça, é um ponto a favor, por ser um fotografia realista e apenas por isso. Affleck é magnífico a criar o ambiente necessário, a tactear o desespero, a revolta e a solidão com as suas faces mais duras e negras. Há sempre uma direcção tomada, e nunca esse caminho é alcançado por atalhos.

Porque como em todos os filmes do género, há um final completamente omitido e perverso da narrativa a que os primeiros 90 minutos de filme nos foram habituando. Mas isso não é o que se sobressai. É como o faz. Affleck resumiu tudo a uma questão de mood. A maneira como a melancolia embate na moralidade, e a maneira como a figura de Patrick a arrasta como um perfume. O filme é negro, tanto literalmente como metaforicamente.

No fim divide-me. Não sei se deveriam haver mais filmes como este, ou menos.

"I always believed it was the things you don't choose that makes you who you are."

Gone Baby Gone, USA, 2007. Realização: Ben Affleck. Fotografia: John Toll. Com: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Morgan Freeman, Ed Harris, Amy Ryan. ****

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Alien vs. Predator: Requiem, de Colin e Greg Strause

Com uma das piores iluminações que já alguma vez vi numa fotografia, AVPR é um dos grandes filmes a evitar ver no grande ecrã, se não em qualquer um. Já não bastava ser uma sequela de um filme com uma falta de lógica arrebatadora, torna-se também ainda menos aceitável que o primeiro ao trazer a luta entre duas espécies desconhecidas ao coração de uma cidade Americana. Com um elenco que pouco consegue alcançar os níveis aceitáveis, e um desenvolvimento de luta com pouca originalidade, a premissa que se desenvolve sucumbe à falta de tentativa de tornar o projecto em algo diferente. Talvez, no fim de tudo, a mediocridade na iluminação teve a sua razão. Foi o único filme que alguma vez me fez querer abandonar uma sala de cinema.


"Fuck this Titanic bullshit, no Women and children first!"



Alien vs Predator - Requiem
, AVPR, USA, 2007. Realização: Colin Strause e Greg Strause. Fotografia: Daniel Pearl. Com: Steven Pasquale, Reiko Aylesworth, John Ortiz, Johny Lewis, Ariel Gade, Kristen Hager. 0