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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Александра, de Aleksandr Sokurov

Parece que tudo é fugaz, que nada durará. A imortalidade desvanece-se num moralismo maior que a vida, mas ainda assim tão bonito como a vida o é. Começou por me mutilar, mas quando cheguei ao coração do filme, o filme chegou ao meu, trespassando-o. Uma banda sonora eloquente e que lhe cabe na perfeição, tornam Aleksandra Nikolaevna numa musa sem a marginalizar de exageros e marcas fúteis.

Feito de uma beleza tão pura e súbtil, entendo porque me encantei, mesmo que tão tardiamente por este projecto Russo. Sem recorrer a liberdades de quem conhece o cinema com a palma da mão, Sokurov desfia a sua história num relato sincero e sereno, solidário e imortal. Porque há decididamente uma mortalidade aderente, mas há fôlego do que é eterno, há um descobrir sem esforço do coração e alma humanas sem recorrer ao melancolismo e à extravagância. A solidão e o amor, a perda e mutilação da verdade e da mentira são traços que unem o contorno esotérico de uma obra de arte perfeitamente imperdível.

Александра, Russia, 2008. Realização: Aleksandr Sokurov. Fotografia: Aleksandr Burov. Com: Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov, Raisa Gichaeva. ****

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Control, de Anton Corbijn

Enquanto música ressoa, quente e deliciosa, poesia destila-se nos poros, na retina, na alma. Narração perfeita de uma alma esquecida pelo entardecer prematuro da sua chama, Control é o renascimento do cinema no seu estado mais puro, ardente e verdadeiro. E é mais que retrato, é vivência, é memória.

Gosto de música, mas não a procuro como procuro ao cinema. Mas depois de Control, os Joy Division ficaram marcados, e percorreram-me durante dias as lembranças, e as coisas bonitas e tristes que me assolam sempre, todos os dias na alma que porto e sou. Como uma banda sonora.

Anton Corbijn maestro desta vivência exarcebada, aborda a solidão, o descontrolo e a morte como se estivessem emersos numa beleza eterna, como se o mundo se perdesse na brusquidão do desconsolo e da aura pesada, e se o medo formasse equilíbrio com o êxito.

Melancolia e euforia conjugam-se, preto no branco, branco no preto, e Control ergue-se como uma obra-prima relevante do cinema contemporâneo. Não só para aqueles que procuram cinema mais alternativo, não só para aqueles que procuram uma biografia, não só por aqueles que sendo fãs dos Joy Division não o podem evitar; mas para aqueles que tiram da tristeza o rumo incerto da vida, ou da melancolia a força para continuar. Esta não é a história de uma banda, é o relato da imagem de alguém que morreu de amor aos 23 anos.

É bonito cinema assim. Se algum dia fizer cinema, quero-o fazer desta maneira.


Control, UK/USA, 2007. Realização: Anton Corbijn. Fotografia: Martin Ruhe. Com: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara. *****

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Reservation Road, de Terry George


Nada tenho contra filmes que pecam um pouco na originalidade, mas tem de ser vislumbrado um certo respeito pelo projecto que se desenvolve, e uma mestria nesse desenvolvimento.

Reservation Road desfia-se na pele dos profissionais que participam, mas não se desfia incondicionalmente na tentativa de fazer um projecto memorável, que acabou por me incomodar.

Com participação exepcional de Joaquin Phoenix, Reservation Road acabou por ter um peso maior, mas pouco arrebatador. O valor moral do argumento é significativo, mas não memorável, e a tentativa de trazer algo novo é nula.


Ao longo do filme, nada nem ninguém são postos à prova, e foi com alguma tristeza que abandonei o filme, ao seu tom melancólico que acabou por não convencer ninguém. Com um desfecho desnecessário, e com os habituais clichés, um drama tão prometedor transformou-se num triller que não conseguiu marcar. Terry George, que depois do fantástico Hotel Rwanda não deu dimensão nem direccionou o projecto prometedor que tinha em mãos, deixou-se ficar com uma mão cheia de fantásticos actores, e com um filme que não sendo tremendamente mau, não deixa de poder ser esquecido. No entanto há vislumbre da alma humana, e dos valores mais sombrios da humanidade, e isso para mim acaba por ser, de certa forma, suficiente.


Reservation Road, USA, 2008. Realização: Terry George. Fotografia: John Lindley. Com: Joaquin Phoenix, Jennifer Connelly, Mark Ruffalo, Mira Sorvino, Elle Fanning. ***

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Nesfarsit, de Cristian Nemescu


Ao saber que um filme está inacabado e ainda assim se dispendiou horas de edição e pós-produção foi uma coisa que me fez mudar a posição na cadeira, uma postura de maior atenção.

O pensamento que mais me assolou a alma quando abandonei a sala de cinema foi que gostaria de ter passado por outras obras de Nemescu antes de me ter entregue a este California Dreamin'. Mas não o fiz, e pela primeira vez em muito tempo fui para o cinema com o propósito de ver um filme do qual nada sabia. O plot era-me desconhecido, apenas sabia que o filme era Europeu.

O filme Romeno, em que o inglês entra de rompante, é magnífico em muitas coisas, e pobre em tantas outras. Mas há coisas deliciosas em cada frame, a sua nudez é fantástica e é isso que cria os sentimentos que nos absorvem em cada cena, em cada minuto.

Nemescu, falecido em 2006, não acabou o que veio a ser o seu último projecto. Não é um projecto acabado, tem as imperfeições de um filme que não acabou por ter o empenho final, e portanto há falhas a nível de ligação entre cenas e personagens, há buracos no entendimento. E esses acabam por ser o que elevam o projecto a uma outra dimensão, capaz de o imortalizar.

É bonito ver que a vida de alguém, neste caso de Cristian Nemescu, foi relembrada no grande ecrã. Foi uma homenagem da qual não me irei esquecer, e decerto que amigos e conhecidos de Nemescu a vão mesmo celebrar em cada memória que California Dreamin' retoma, até para nós que vemos.

California Dreamin' é um projecto simples. As perspectivas são sem sombra de dúvida pessoais, mas no entanto é um projecto que reflecte talento e respeito à história que conta. É um retrato íntimo, um retomar aos medos da guerra sem o tornar aterrador. É a absorção individual de um momento na história que não deixa marcas no que foi, mas no que continua a ser. Os actores demonstram um gosto enorme de serem esse mesmo reflexo, em particular Maria Dinulescu e Razvan Vasilescu.

É no fim um projecto simples, que inacabado como o título nos avisa, parece completo em todos os sentidos. California Dreamin' acaba por ser um monumento profundamente emocional, com racionalidade constante, e uma fúria e paixão secretas bem escondidas debaixo da sua derme.

No fim é claro, California Dreamin' está constantemente num jogo connosco. Provoca-nos e deixa-nos ir, e de repente chama-nos a atenção para emoções que se perderam na memória. Há uma clara explosão de vida em cada silêncio, e uma entrega constante a um projecto que sendo cruel, duro e negro é ao mesmo tempo memorável, honorífico e eterno.

"All the leaves are brown, and the sky is grey. I've been for a walk on a winter's day. I'd be safe and warm if I was in L.A. California Dreamin' on such a winter's day."

Nersfarsit, Romania, 2007. Realização: Cristian Nemescu. Fotografia: Liviu Marghidan. Com: Armand Assante, Jamie Elman, Razvan Vasilescu, Maria Dinulescu. ****

segunda-feira, 7 de abril de 2008

I'm Not There, de Todd Haynes

Seis diferentes personagens dedilham a vida de um dos ícons mais marcantes das últimas décadas, com um êxito que me prendeu como há muito uma biografia não o conseguia fazer.

Sendo representando no ano de 1959 pelo jovem Marcus Carl Franklin na pele de Woody Guthrie, o Dylan dos anos 60 por Christian Bale como Jack Rollins que é ele representado por um actor de Hollywood chamado Robbie Clark representado por Heath Ledger (que é Dylan no começo dos anos 70), e Richard Gere representa o fora de lei Billy the Kid, Dylan é capaz de quase alcançar a imortalidade.

Mas as personagens mais marcantes e onde o foco recai são representadas por Ben Whishaw e Cate Blanchett. O primeiro, Arthur Rimbaud o poeta, vai respondendo a perguntas que lhe fazem e que respondem também, muitas vezes, aquelas que nos vão bombardeando na alma. Cate Blanchett por sua vez é Jude Quinn, um músico que altera o seu género musical que o lançou para o sucesso, do folk para uma onda mais eléctrica, mais rock.

O facto de terem sido 6 personagens a representar uma ascensão magnífica, não é realmente o mais impressionante, mas sim o facto de terem sido apenas escolhidas seis. Com um maneira tão nata de nos fazer sentir que o aprisionamento emocional, ou a liberdade são bens que se tornam susceptíveis a mudanças sem sentido, Todd Haynes traz-nos um projecto que marca e que é por assim dizer quase imprescindível.

O filme, abraçando um adaptar de vários géneros cinematográficos como westerns, o eterno preto e branco e o documentário, vai deslizando entre a inovação e o classicismo, entre uma energia constante e um desenlace prometedor.

Foi sobretudo o visual que me prendeu, a representação de Whishaw e Blanchett, uma despedida a Ledger, e um primor de banda sonora. No entanto, há coisas que não se escrevem, vêm-se. E é por isso que respeito tanto o cinema como respeito uma obra-prima literária. E o respeito que fica de uma obra biográfica deste calibre é ao mesmo tempo selvagem e terna.

Para fans de Dylan ou não, é pelo menos uma certeza de começar um caminho de respeito por Haynes, e todos os que tentaram imortalizar Dylan no grande ecrã e no nosso olhar, ouvidos e sorriso.


"There he lies. God rest his soul, and his rudeness. A devouring public can now share the remains of his sickness, and his phone numbers. There he lay: poet, prophet, outlaw, fake, star of electricity. Nailed by a peeping tom, who would soon discover even the ghost was more than one person."


I'm Not there, USA/Germany, 2007. Realização: Todd Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Com: Cate Blanchett, Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger. ****



terça-feira, 18 de março de 2008

Sukkar banat, de Nadine Labaki



Caramel relembrou-me que o cinema também é bonito simples, como a vida o é. Não há acerca de Caramel um único ponto que necessite tradução, há uma canção realista e uma mensagem genuína, e isso é a tudo o que Caramel se resume.

Um vaivém diário de vidas que se cruzam e, como as nossas, chocam umas com as outras sem que por vezes haja uma percepção disso mesmo, pelo menos instântanea. A construção das personagens não é pesada, na verdade é leve e fá-las resultar logo que surgem ao olhar. São bonitas, as personagens, e sabem-no. Não há esforço, como já disse é genuíno.

Assim Caramel é o relato de muitas vidas como uma só. Um salão de beleza é o limbo onde a narrativa se vai desfiando, e o que cada uma alcança deve-se sobretudo à sinceridade que portam quanto a uma vida que proclamam maior que elas.

Numa rua onde, à partida haverá uma associação à escuridão da violência e da insegurança, do que a mulheres a atravessar a estrada com pernas altas e vestidos pelos joelhos, prontas a dedicar mais um dos seus dias pacíficos na descoberta da beleza, Caramel é bem sucedido a levantar questões que de irónicas se revestem de um toque humorístico fantástico.

Não me cansei nem por um só segundo. Com uma fotografia com um toque que se sente ser pessoal, e que é também extremamente bonita e quente, acabamos por sorrir compulsivamente durante grande parte dos minutos totais do filme. A música desflorou um significado único, e entregou a certeza de que, por vezes, um projecto internacional faz-nos sentir mais em casa do que um projecto nosso. Fico feliz por pensar que o cinema não tem barreiras, desde que tenha coração.


Sukkar banat, France/Lebanon, 2007. Realização: Nadine Labaki. Fotografia: Yves Sehnaoui. Com: Nadine Labaki, Yasmine Elmasri, Joanna Moukarzel. ****

sábado, 15 de março de 2008

La Môme, de Olivier Dahan

Escrever sobre La Môme, ou mais frequente reconhecido como La Vie en Rose, vai-me ser complicado. Mais do que o habitual.

Ainda não consegui desenvasilhar a minha opinão sincera sobre esta obra de Dahan, porque ainda não me apercebi se gostei dela por tudo ou pela magnífica, já nem sendo necessário referir, representação de Marion Cotillard, e apenas por ela.

La Môme, como biografia que é, não apresenta grande versatilidade porque há um fim que já se conhece, e um desfiar de acontecimentos que, se não sabidos de cor, são reconhecidos por grande parte da plateia, fans de Piaf ou não.

Enquanto retrato, La Môme, é perfeito. Enquanto projecto cinematográfico já sinto algumas saliências, que não sendo tão grandes assim, têm um odor a dúvida. Por vezes confuso, o filme aconchega planos sinceros e realistas, mas há uma dor sempre presente que penso não ter ajudado à descoberta de uma vida que sempre se registou como magnífica.

Assim sendo, pelos limites oferecidos, Marion Cotillard fez a representação de uma vida. Mas Dahan, não apresentou um projecto que marque a alma pela positiva. Em todo o filme senti morte, pena, e tristeza a formar-se dentro de mim, e apesar de acreditar que tudo isso fez parte da lenda que Edith Piaf se foi tornando desde as ruas de Paris, até hoje, 45 anos após a sua morte, penso que a obscuridade e a sua alma atrás dos palcos merecia, em homenagem, um pouco mais de luz e a sua voz um pouco mais de omnipresença.

Mas este projecto de ambicioso torna-se magnífico; apesar de ter as suas falhas nem uma foi marcada por Cotillard, que foi merecedora do Oscar sem sombra de dúvida (aliás deveria, se tal fosse possível, ser nomeada por 50 anos pelo seu papel que aqui foi eterno e fantástico). Um pouco mais da era e da cultura em que foi criada poderiam também entregar muito valor ao filme de Olivier Dahan. Mas ele tornou poesia, a alma e vida de uma poeta. E isso importa demasiado.

"Nothing existed before you. It's all gone."

La Môme, France/UK/Czech Republic, 2007. Realização: Olivier Dahan. Fotografia: Tetsuo Nagata. Com: Marion Cottilard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Gérard Depardieu. ****




segunda-feira, 3 de março de 2008

Le Voyage du Ballon Rouge, de Hsiao-hsien Hou


Durante cento e tal minutos fui assaltada desesperadamente por imagens bonitas da minha infância. Se existem palavras que descrevam o trabalho de Hou, melancolia e nostalgia deverão ser as do topo.

Poderia dizer que uma das características deste projecto que homenageia a curta de Albert Lamorisse, é que este projecto audacioso não é para todos. Mas custa-me dizê-lo porque acho sinceramente que qualquer pessoa encontrará uma qualquer ligação, um desprender impossível de uma obra que é acima de tudo exarcebadamente pessoal.

Para mim, todo a personificação de uma Paris banal, e cansada do tempo, leva a que as imagens que nos chegam aos olhos ganhem perpetuamento constante. Consigo quase ouvi-la respirar que as coisas fugazes são as mais belas, e que a perda nos faz crescer, mas no entanto rejuvenescer.

Perseguido por um balão vermelho (ao contrário do que acontece em Le Ballon Rouge de Lamorisse em que é o rapaz que persegue o balão), o balão vai ganhando um peso crucial. Passa a ser introdução, o clímax e o desenlace de uma obra bonita, que se perde em monotonismo e simplicidades, que nos enchem os olhos de um sorriso sensível mas constante. Na verdade, com sensibilidade, Hou conseguiu erguer um belíssimo conto francês, com a sua alma oriental.

Juliette Binoche, por sua vez não só está encantandora como sempre, como está também magnífica com uma representação arrepiante, que comove. O restante elenco está certo em medida, em alma estão presentes

Assim, um balão vermelho persegue um rapaz, que se deslumbra pelos prazeres da infância, pela perdição de uma vida comum, difícil, e pela simplicidade que um caminho na sombra das ruas consegue entregar desejos a quem se julga ainda imortal. Um quadro, uma irmã, uma pessoa que cuida de nós enquanto a mãe está fora são tudo belezas, mas o filme é todo a leveza de um balão vermelho. E depois disso Hou merece todo o respeito.


Le Voyage du Ballon Rouge, France, 2007. Realização: Hsiao-hsien Hou. Fotografia: Pin Bing Lee. Com: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Fang Song. ****

domingo, 2 de março de 2008

The Darjeeling Limited, de Wes Anderson

The Darjeeling Limited baseou-se em duas coisas fundamentais; o retrato magnificiente de uma Índia e uma construção profunda das personagens, também ela magnificiente. Depois de uma carreira curta como realizador, Wes Anderson entrega-se a um projecto que nos apaixona pela sua simplicidade e diferença.

As texturas, as cores e os diálogos vão construindo um mundo ilimitado de amizade e família, de aprendizagem e silêncios, e acima de tudo de percepção de realidades num mundo que parece afogado em misticismos e contos de fadas. Com paisagens belíssimas, The Darjeeling Limited tornou-se facilmente o meu filme preferido de Wes Anderson desde sempre.

Adrien Brody, Jason Schwartzman e Owen Wilson são magníficos. Na verdade tenho de dar relevo a Wilson por me impressionar bastante com a sua presença, revelando-se um outro actor com novas limitações daquele que nos foi habituando. Com uma procura igual mas levada tão diferentemente, as personagens vão-se perder delas mesmas para encontrar o equilíbrio, a importância da irmandade e no fundo encontrarem-se como um só.

Com uma curta metragem que antecede ao filme, Wes Anderson introduziu o relato que se seguiria, a história intima de um dos irmãos. Com Natalie Portman, os poucos minutos que duraram serviram para que durante a longa conseguíssemos idealizar as opiniões dos irmãos, mas suportar a dor de Schwartzman.

Wes Anderson vai assim desfiando o filme entre tristezas e alegrias, entre um drama sempre presente e situações que se proclamam cómicas, marcam, como já foi pegado em The Life Aquatic With Steve Zissou, a procura incessante de um caminho, de um retorno às coisas puras, de um rumo que os torne mais espirituais, e assim mais unidos. Com uma banda sonora magnífica e um elenco e fotografia quase mágicos, The Darjeeling Limited é um filme bonito que vale a pena ver.

Um retrato de pessoas danificadas com humor e compaixão, levam a que este filme supere uma expectativa inicial. Sem ironia nem máscaras a dor está à vista. Penso que acima de tudo esta é a primeira vez que Anderson o faz, e talvez seja por isso que no fim a única coisa que persiste é um sorriso nos lábios. Sem dúvida alguma que é uma viagem que vale a pena.

"I love the way this country smells. I'll never forget it. It's kind of spicy."


The Darjeeling Limited, USA, 2007. Realização: Wes Anderson. Fotografia: Robert D. Yeoman. Com: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman. ****

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Gone Baby Gone, de Ben Affleck

Um filme que começa com coração cativa-me quase sempre. Acho que os primeiros minutos que expõem uma premissa são cruciais, dão oportunidade a que haja uma metamorfose mais bonita e consistente, e dão valor ao intimismo que uma obra revela. Gone Baby Gone começa de uma forma bonita, com voz off de uma voz que vai já sendo habitual em produções de valor, e com uma série de planos que envergonhariam os melhores.

A verdade é que Ben Affleck conseguiu um filme neutro mas importante, um retrato habitual de uma sociedade com os valores errados, das brusquidões do coração humano, e das suas mesmas capacidades, necessidades e desejos. Não é o exposto que se sobressai, é ser quem o faz e como o faz.

Casey Affleck, que vai construindo a sua própria escada que o tornará num titã, oferece mais uma vez a potência e impotência que a sua personagem consome, sem nunca vacilar nos sentimentos que oferece. Ed Harris e Morgan Freeman as caras mais conhecidas no novelo que Ben Affleck teceu como forma de retratar a moralidade humana, foram fantásticos, com destaque para Harris. Amy Ryan, única nomeada para um Oscar, no entanto, teve uma oportunidade magnífica de se fazer sentir. E fez. Toda ela é um cena de terror. A simplicidade de ser vulgar tornam-na imortal em Gone Baby Gone, com magnificiência.

Ben Affleck foi assim a maior (e melhor) surpresa dos últimos tempos. A sua mestria atrás das câmaras quase eclipsou as representações a que nos foi habituando ao longo do sua carreira. Não é novo que um actor percorra um caminho que o leva à realização, mas é menos corrente que este, na sua estreia, se baptize com um filme que se torna desde logo uma parte importante do cinema moderno.

Se ao longo do filme, confusão apareça, é um ponto a favor, por ser um fotografia realista e apenas por isso. Affleck é magnífico a criar o ambiente necessário, a tactear o desespero, a revolta e a solidão com as suas faces mais duras e negras. Há sempre uma direcção tomada, e nunca esse caminho é alcançado por atalhos.

Porque como em todos os filmes do género, há um final completamente omitido e perverso da narrativa a que os primeiros 90 minutos de filme nos foram habituando. Mas isso não é o que se sobressai. É como o faz. Affleck resumiu tudo a uma questão de mood. A maneira como a melancolia embate na moralidade, e a maneira como a figura de Patrick a arrasta como um perfume. O filme é negro, tanto literalmente como metaforicamente.

No fim divide-me. Não sei se deveriam haver mais filmes como este, ou menos.

"I always believed it was the things you don't choose that makes you who you are."

Gone Baby Gone, USA, 2007. Realização: Ben Affleck. Fotografia: John Toll. Com: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Morgan Freeman, Ed Harris, Amy Ryan. ****

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

The Brave One, de Neil Jordan



Jodie Foster não só é a melhor da sua geração, como é a melhor de todas as outras. Não consigo descrever a maneira como senti o que Erica Bain sentia, a sua loucura de solidão e de revolta, a necessidade de um grito eterno e de um abraço interminável. O desespero envolve-nos como Jodie Foster tão grandiosamente joga no filme. A sua entrega a uma quase morte psicológica ressuscita em nós a necessidade de vivermos um pouco mais na vida dos que sentimos estar mais perto de nós.

Foster é uma caminhante das ruas anundada em perda e sede de vingança. Uma caminhante que se envolve num processo de metamorfose que não consegue controlar, uma “outra” que destrói o que é capaz de magoar ou o que é simplesmente errado. The Brave One é um filme que não passa de ser um bom filme, mas um filme que entretém extremamente, só havendo uma ou outra cena que fazem com que o filme se perca um pouco e oscile. Podendo ter sido um pouco mais curto (mesmo não passando da habitual hora e meia de filme), A Estranha Em Mim é um filme que vale tudo pela presença de Jodie Foster e pelo caminho que percorre não só pelas ruas Novas Iorquinas tão naturalmente projectadas sob a lua, como pelo seu arrastar na construção de uma história sensacional e extremamente energética.

Neil Jordan traz-nos assim um filme que é uno pela simplicidade de voltar a trazer de um ambiente à antiga, onde há violência não só entre países mas entre individuais da mesma cidade. E o importante agora é voltar a pegar nisso, como que um grito a fazer-nos relembrar que o mundo é sempre tomado de caos. É o renascer da antiga definição de “revenge”, que nos revolta a sombra do olhar e nos faz entrar num contacto imprescindível de relacionamento com a personagem.

Esquecendo um pouco a loucura do pós-11 de Setembro, Neil Jordan focou uma violência mais simples, que apesar de esquecida faz parte das raízes das “cidades mais seguras do mundo”. Consegui sentir dor perante as nódoas negras de Erica, e saudades de abraçar o seu noivo que acabou por perder, e tão perfeitamente representado por Naveen Andrews. Até senti perda dentro de mim, um vazio de garganta seca.

No final para melhorar tudo, ainda me apercebi que o título acabou por fazer o maior sentido, ainda que em nada ou pouco seja uma fiel tradução do título original. Para terminar as referências sobre a representação, o equilíbrio que se sente entre Erica Bain e o detective Mercer não se deve exclusivamente a Jodie Foster mas à importante presença de Terrence Howard que entrega um maior equilíbrio psicológico a toda a narração.

A falas de Bain como locutora de uma rádio diferente das outras entraram-me na alma, a magnífica representação de Foster não me sai da cabeça, e o projecto de Neil Jordan acabou por me salvar da crença de que futuros policiais e filmes do género deviam ser evitados. O que mais marca o filme não é a originalidade do argumento, pois acaba por não ser assim tão original, mas o facto de todo o tactear da revolta, vingança, violência e brutalidade serem-nos entregues por uma personagem que ao princípio do filme se afirma a mulher mais feliz do mundo. Jodie Foster, digo, é um gigante íman. Ainda sinto certas coisas do filme a caminharem-me sobre a pele.

"Most everybody lies. Dead can't."

The Brave One, USA/Australia, 2007. Realização: Neil Jordan. Fotografia: Philippe Rousselot. Com: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews. ****

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Garden State, de Zach Braff


Garden State
foi um dos filmes mais marcantes que vi nos últimos anos. Saído em escassas salas de cinema Portuguesas em 2004, foi visto por mim por um mero acaso que eu abençoei até hoje. E assim que saiu em DVD, o DVD era meu.

Isto para tentar planificar um pouco a beleza que eu vejo nesta produção, e para tentar também racionalizar tudo o que eu sinto cada vez que imagino Sam (Natalie Portman) em frente a uma lareira apetecível a mentir compulsivamente mas de uma maneira totalmente inofensiva, quando muito mais recentemente a vimos em Closer semi-nua, ou Zach Braff capaz de se apaixonar sem complexos absurdos ao contrário do que acontece em Scrubs, que é na verdade na minha opinião uma das melhores comédias em série alguma vez criadas.

Na verdade, nós expectadores somos capazes até de sentir o turbilhão de emoções que Andrew Largeman (Braff) vai expondo ao longo da narrativa, desde a sua dor perante a perda da mãe que é ainda assim tão camuflada pelo seu vício de comprimidos, até ao amor que o quase esfola vivo de tão imaturo e inocente que sente tão previsivelmente por Sam. E claro foi nada mais nada menos que o acaso que os fez encontrarem-se. Clássico, mas um clássico maravilhoso.

Todo este filme de Zach Braff, em que é ele quem escreve, realiza e representa, é uma caracterização de inocência pura que nos cega de amor próprio e nos faz abraçar o destino de cada personagem como se abraçássemos quem mais amamos. Porque nós nos apaixonamos por eles, e por toda este entrega que Braff nos faz a nós. Ele entregou-nos amor na forma de cinematografia.

É impossível poder esqueçer toda a existência de Sam, e aqui Portman está soberba, revestida a ouro que lhe é confortável, a ela e a nós, ouro que é nada mais nada menos que beleza genuína, por fora e por dentro. Braff é prata, e essa prata é uma pena inicial que sentimos pelo seu destino, mas que sofre metamorfose numa coisa muito mais grandiosa: a desistência de um "eu" para se tornar num "eu contigo". Acabamos por desejar, no final sermos todos uma Sam. Não consigo apagar a imagem de Portman a dançar no seu quarto de forma que a faça ser especial e única, fazendo algo que mais ninguém fez, ou o facto de Braff encarnar uma pessoa que não sabe nadar. Tudo isso faz-nos sorrir e lançar gargalhadas de compaixão. E apaixona-nos.

E não falando apenas da representação de Natalie Portman e de Zach Braff posso ainda estender o meu aplauso e o meu sorriso grandioso a Peter Sarsgaard pela sua amizade absurda e quase cruel, e a Ian Holm pela sua presença de valor incontornável.

A banda sonora é soberba, e as paisagens e a fotografia do filme são de chorar por mais, e mais, e mais. É um daqueles filmes que só queremos que acabe, porque sabemos que vai acabar bem e não interessa mais nada. E se acabar, our dreams can start.

Este é um filme que é, arrisco dizer, obrigatório ver. É uma das provas que bom cinema pode ser feito com low budgets e menor liberdade orçamental, e com presença de actores que na altura eram quanto muito, secundários.

Se eu primeiramente soubesse que o criador desta obra-prima fosse alguém que até então nada tinha realizado ou escrito (à excepção de uma curta em 1997) então não teria acreditado. Zach mostra do que é capaz, não pelas gargalhadas que oferece com Scrubs mas pela sua criação deste filme independente, que tristemente é conhecido por tão poucos.

Este filme é de uma brutalidade interminável. A simplicidade e a genuinidade são as palavras-chave deste filme. E claro, amor.

"What's the word that's burning in your heart?"

Garden State, USA, 2004. Realização: Zach Braff. Fotografia: Lawrence Sher. Com: Zach Braff, Natalie Portman, Ian Holm, Peter Sarsgaard. ****