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domingo, 20 de julho de 2008

Lemony Snicket's A series of Unfortunate Events, de Brad Silberling

Recordo-me que na sua estreia, no final do filme estava um pouco atordoada. Compreendi que novas percepções se abriam, coisas que nunca me tinha apercebido no cinema até aí. Não sei bem se foi com o à vontade com que me sentei num suposto filme para crianças, a na nuvem negra que ficou a pairar sobre a minha cabeça durante os minutos totais do filme. 

O projecto de Brad Silberling, adaptação do conjunto de histórias de Daniel Handler, faz-me sempre feliz. Sempre que o vejo há uma luz de presença que se apaga de vez e me enternece. Com um visual completamente eloquente e magnético, Silberling traça um novo género; um rumo depressivo e negro de uma comédia, que é acima de tudo um drama para os mais astutos.

Sentido o seu trago comovente, eu gosto apenas de sorrir. Lembrei-me muito de Tim Burton durante o desfiar de cada imagem, de cada cor, de cada detalhe magistral e estranho. A perda e o crescimento, a percepção de uma moral que não é assim tão crucial, mas leve e estranhamente familiar, fazem-me querer encontrar um mundo assim tão desequilibrado e tão perdido, mas que esconde explosões de cor em cada recanto. 

Os símbolos são claros como o filme é negro. O desencanto dos medos esquecidos tornam-se decisivos. Os medos mais obscuros da nossa infância ganham vida, e a única coisa a temer é a continuação não chegar nunca. Pode-se sempre dizer mais, mas aqui para ver é preciso crer.  

Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events, USA/Germany, 2004. Realização: Brad Silberling. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Com: Jim Carrey, Liam Aiken, Emily Browning, Kara Hoffman, Timothy Spall, Meryl Streep. ****

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sex and the City: The Movie, de Michael Patrick King


Não sei ainda se este desfecho foi assim tão conclusivo, admito. Tornei-me ao longo dos tempos uma fã da série, mas assim que soube que o final nos iria ser trazido por salas de cinema fez-me erguer o sobrolho.

Sem se preocupar demasiado em deliciar os fãs, a preocupação toda foi dirigida à audiência que não vê a série. Demasiado interessado em dar informação da vida das quatro amigas até à data, o filme inundou-se em consumismo e observações que não sendo completamente desnecessários nunca deveriam ter saído de segundo plano. A amizade, o envelhecimento e o amor, sempre presentes, esses sim deveriam ter sido elevados à imortalidade que merecem e que no fundo a série sempre nos habituou.

Não era um projecto fundamental, por assim dizer. E isso de certa forma chateia-me. Mas há aquela fronteira que une o mundo feminino com a quase necessidade de sobrevivência, e no fundo Sex and the City sempre foi acerca disso mesmo: o feminismo a sobreviver lado a lado com o amor e a amizade, o profissionalismo e o êxito. O que não o faz ser apenas dirigido a mulheres, mas a homens também.

No fundo é uma tentativa egocêntrica de dar um novo pulso a um conto de fadas, que tremendamente superficial, torna-se também perfeitamente plausível. Sem desfiar tentativas de torná-lo obrigatório e incontornável, Michael Patrick King foca-se apenas em dar-nos cinco episódios que possam por um ponto final nesta nossa sede de glamour, amizade e claro, CarrieSamanthaCharlotteMiranda-ó-adoração.

Sex and the City, US, 2008. Realização: Michael Patrick King. Fotografia: John Thomas. Com: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon. ***

quarta-feira, 18 de junho de 2008

What Happens in Vegas, de Tom Vaughan


Mais uma vez é preciso ser tolerante, e What Happens in Vegas acaba por ser tolerável na sua fórmula e na procura de um público alvo um pouco diferente. No entanto a narrativa arrasta-se para se tornar incontornavelmente seca, e o acabamento demasiado familar.

Acredito seriamente, mesmo que nem sempre o aceite, que cinema assim vai sempre existir, como que um subgénero de cinema mais fraco, mas que acaba ainda por entreter na maioria das vezes.

O elenco, sóbrio mas tão pouco convincente, maneja o pouco de atractivo que o projecto de Tom Vaughan tem, sem conseguir articular a química para a qual as personagens foram criadas. Ainda assim há qualquer coisa em What Happens in Vegas que o distancia das outras silly romantic comedies que sairam recentemente. Há sobretudo um divertimento plausível e sincero no seu desenvolvimento, e ao fim de uma hora e meia não saímos propriamente com o sentimento de tempo perdido. Porque no fundo sabemos que filmes assim vão sempre existir; de pouca mestria mas de divertimento quase seguro.

What Happens in Vegas, USA, 2008. Realização: Tom Vaughan. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Com: Cameron Diaz, Ashton Kutcher, Rob Corddry. **

sábado, 26 de abril de 2008

Top Secret!, de Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker

Uma produção massivamente satírica é sempre um risco exorbitante. No entanto eu arrisco sempre abrir os olhos quando se trata de momentos esquecidos, e importantes recordar na forma de sátira ou memória.

Top Secret! é tremendamente bem-sucedido. Para mim, adepta de projectos mais independentes e um pouco mais ligados ao espírito, alma e coração, foi um sopro fresco de comédia e boa disposição, e uma visão libertadora do passado.

Ao mesmo tempo que nos faz lembrar a guerra e as sátiras que já na altura se proclamavam em jornais regionais, as caricaturas que são hoje pedras preciosas do crescimento cultural e do interesse prematuro por jornais e magazines, Top Secret! reaviva a memória para lendas que não se alcançam em representações mas que de si vale a pena tentar.

Elvis, James Dean, a polícia política, o respeito e a ditadura são caracterizações que se fazem libertinamente em Top Secret!. O que é verdadeiramente importante denotar é que as sátiras não são feitas a factos históricos ou a figuras públicas, mas a filmes que inundavam no tempo e que são hoje clássicos.

Com o grau perfeito de insanidade, Top Secret! é também inteligente para aqueles que estiverem com atenção. Coreografias, diálogos, graças propositadas, piadas despropositadas e até a auto-denominação e reflexo de um mau filme, entregam se não originalidade, genialidade ao projecto estimulante e memorável de Jim Abrahams, David e Jerry Zucker.

Val Kilmer como nunca vi melhor, e o criador de Airplaine! a retornar ao género, é o exemplo perfeito de como passar hora e meia de maneira diferente. E viva o canal Hollywood por causa disso.


"Nick, I've tried everything: the embassy, the German government, the consulate. I even talked to the U.N. ambassador. It's no use, I just can't bring my wife to orgasm."


Top Secret!, USA/UK, 1984. Realização: Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. Fotografia: Christopher Challis. Com: Val Kilmer, Lucy Gutteridge, Peter Cushing. ****

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Tenacious D in The Pick of Destiny, de Liam Lynch

"You guys, having some satanic guitar pick isn't gonna make your rock any better... because Satan's not in a guitar pick, he's inside all of us."

Tive algum tempo a decidir se deveria ou não aventurar-me por este projecto de Liam Lynch, mas estava curiosa acerca do que sairia de umas mãos que não estão habituadas a grandes produções cinematográficas, com o público alvo a ser o que este Tenacious D acabou por ser.

Não entendo bem a razão do porquê de eu ao ouvir Jack Black a cantar um “The Government Totally Sucks” me lembrar subitamente de Adam Pascal na sua personagem Roger a entoar “One Song Glory” no magnífico musical de Chris Columbus, Rent. Mas aconteceu.

Tenacious D pelo que me foi permitido perceber começou por ser um projecto autobiográfico de Jack e Kyle Gass, fundadores da banda “The D”, nome no qual foi posteriormente inspirado o título da comédia. Depois de ser criada uma legião de fãs, Tenacious D calha que nem ouro em bolso vazio.

Jack Black na personagem dele próprio é sincero, mas sem o querer ser é o que o faz ser tão bem sucedido a cativar-nos no seu rock & roll entusiasta e espontâneo. A fraca tentativa de fazer de Tenacious D uma obra-prima entrega pontos a favor, ao contrário do que aconteceu em Nacho Libre. Na verdade Tenacious D não é um projecto grandioso, é uma quase sátira autobiográfica, mas são 83 minutos que valem a pena serem perdidos na causa Black & Glass.

Não há uma razão suficientemente forte para se apreciar realmente este Pick of Destiny que o duo nos traz, mas mesmo sem fazer muito sentido, as gargalhadas são algumas e sinceras, e mesmo quando não as há parece que fica o sentimento que estamos quase a chegar a um bem estar eterno. Mas lado a lado com Sacha Baron Cohen e Will Ferrell, para referir alguns dos maiores focos de comédia do ano passado (de há dois anos digo!), Jack Black foi, sem se querer realmente, afundado por um esquecimento breve e frio.

O destino e o êxito do duo é limitado, e todo o filme se estilhaça à volta de uma procura e conquista de um objecto pouco maior que um dente, no verdadeiro sentido da palavra. Mas desta é sem hobbits e ants, e Sauron, mas é uma epopeia que tem pouco de seriedade e algum coração à mistura. E isso é que torna este projecto tão agradável.

Isso e a presença de algumas carismáticas figuras, impossíveis de deixar de lado: Ben Stiller, Tim Robbins e Meat Loaf entregam valor ao projecto, e guiam-no num sentido mais aceitável, servindo tanto como reguladores de uma confusão profunda como o levam num sentido mais sombreado e obscuro.

Assim, dá para nós espectadores saborearmos também um pouco do prazer com que eles se lançam em palco, no à vontade genuíno dos passos que dão, no talento quase ilimitado das suas vozes e do seu dedilhar; e nesse aspecto nada em Tenacious D falha. Penso que acima de tudo este filme é para eles. Para eles há um objectivo, para eles poderá e, com quase toda a certeza, ser uma diversão bruta e pura. Para nós, se esquecermos os factores que normalmente caracterizam um bom filme e nos focarmos numa comédia quase infantil, Tenacious D quase se transforma em Nirvana. Metáforas à parte.






Tenacious D in the Pick of Destiny
, USA/Alemanha, 2006. Realização: Liam Lynch. Fotografia: Robert Brinkmann. Com: Jack Black, Kile Gass, JR Reed, Tim Robbins, Ben Stiller. ***