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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Tenacious D in The Pick of Destiny, de Liam Lynch

"You guys, having some satanic guitar pick isn't gonna make your rock any better... because Satan's not in a guitar pick, he's inside all of us."

Tive algum tempo a decidir se deveria ou não aventurar-me por este projecto de Liam Lynch, mas estava curiosa acerca do que sairia de umas mãos que não estão habituadas a grandes produções cinematográficas, com o público alvo a ser o que este Tenacious D acabou por ser.

Não entendo bem a razão do porquê de eu ao ouvir Jack Black a cantar um “The Government Totally Sucks” me lembrar subitamente de Adam Pascal na sua personagem Roger a entoar “One Song Glory” no magnífico musical de Chris Columbus, Rent. Mas aconteceu.

Tenacious D pelo que me foi permitido perceber começou por ser um projecto autobiográfico de Jack e Kyle Gass, fundadores da banda “The D”, nome no qual foi posteriormente inspirado o título da comédia. Depois de ser criada uma legião de fãs, Tenacious D calha que nem ouro em bolso vazio.

Jack Black na personagem dele próprio é sincero, mas sem o querer ser é o que o faz ser tão bem sucedido a cativar-nos no seu rock & roll entusiasta e espontâneo. A fraca tentativa de fazer de Tenacious D uma obra-prima entrega pontos a favor, ao contrário do que aconteceu em Nacho Libre. Na verdade Tenacious D não é um projecto grandioso, é uma quase sátira autobiográfica, mas são 83 minutos que valem a pena serem perdidos na causa Black & Glass.

Não há uma razão suficientemente forte para se apreciar realmente este Pick of Destiny que o duo nos traz, mas mesmo sem fazer muito sentido, as gargalhadas são algumas e sinceras, e mesmo quando não as há parece que fica o sentimento que estamos quase a chegar a um bem estar eterno. Mas lado a lado com Sacha Baron Cohen e Will Ferrell, para referir alguns dos maiores focos de comédia do ano passado (de há dois anos digo!), Jack Black foi, sem se querer realmente, afundado por um esquecimento breve e frio.

O destino e o êxito do duo é limitado, e todo o filme se estilhaça à volta de uma procura e conquista de um objecto pouco maior que um dente, no verdadeiro sentido da palavra. Mas desta é sem hobbits e ants, e Sauron, mas é uma epopeia que tem pouco de seriedade e algum coração à mistura. E isso é que torna este projecto tão agradável.

Isso e a presença de algumas carismáticas figuras, impossíveis de deixar de lado: Ben Stiller, Tim Robbins e Meat Loaf entregam valor ao projecto, e guiam-no num sentido mais aceitável, servindo tanto como reguladores de uma confusão profunda como o levam num sentido mais sombreado e obscuro.

Assim, dá para nós espectadores saborearmos também um pouco do prazer com que eles se lançam em palco, no à vontade genuíno dos passos que dão, no talento quase ilimitado das suas vozes e do seu dedilhar; e nesse aspecto nada em Tenacious D falha. Penso que acima de tudo este filme é para eles. Para eles há um objectivo, para eles poderá e, com quase toda a certeza, ser uma diversão bruta e pura. Para nós, se esquecermos os factores que normalmente caracterizam um bom filme e nos focarmos numa comédia quase infantil, Tenacious D quase se transforma em Nirvana. Metáforas à parte.






Tenacious D in the Pick of Destiny
, USA/Alemanha, 2006. Realização: Liam Lynch. Fotografia: Robert Brinkmann. Com: Jack Black, Kile Gass, JR Reed, Tim Robbins, Ben Stiller. ***

domingo, 9 de dezembro de 2007

The Celestine Prophecy, de Armand Mastroianni

The Celestine Prophecy é um livro magnífico. Li-o recentemente, muito recentemente até, e de certa forma mudou a forma como levo as coincidências e a energia que trago dentro de mim, bem como os pensamentos e os sonhos que tenho. E penso que o facto de ter achado o filme que nele se inspirou uma desilusão, não foi coincidência. Teve a sua razão de ser.

Esta adaptação trazida pela mão de Armand Mastroianni o ano passado, não é uma adaptação fiel do belíssimo livro de James Redfield, mas consegue por demasiadas razões tornar-se num filme que vale a pena ver. Mas essa tentativa penso que só deveria vir a seguir a ser lida a obra, porque esta é quem realmente tem de levar os créditos todos.

Armand Mastroianni desfiou os 100 minutos de filme de uma maneira demasiado despreocupada, onde as situações se tornam pesadas facilmente, e onde a não sucessão lógica das cenas nos leva a torcer o sobrolho, a nós quem lemos a obra de Redfield. Porque a linha narrativa do filme não segue a do livro e isso chega para lhe tirar valor que sobra. Muitos planos foram ridiculamente introduzidos, muitas personagens cruciais esquecidas e se a floresta parece complicada, nem esperem para analisar as sequências por Mastroianni escolhidas.

Desta feita, Mastroianni apenas consegue utilizar uma mão cheia de planos meramente nus de originalidade, perspectivas completamente descabidas do ponto de vista da narração e, como já referi, sequências que em nada entregam respeito ao projecto. Pontos fulcrais acerca da história foram inaceitavelmente deixados de lado e o teor anti-religioso tantas vezes sublinhado no livro completamente ridicularizado.

Mas há ainda coisas que é necessário valorizar nesta adaptação, como as belíssimas paisagens nos planos muito gerais, com o desfiar da energia falada na história genuinamente entregue aos efeitos especiais, mas perfeitamente entregue também. Esses não decepcionam de todo a não ser em certa medida, em inícios do filme.

A entrega do papel de Cardeal Sebastian a Hector Elizondo foi das únicas, se não a única escolha de casting bem feita, pois tanto a da personagem principal, Matthew Settle para o papel de John como a de Annabeth Gish para o de Julia foram escolhas que trouxeram o filme 180 graus abaixo do seu rendimento, ainda que Gish tenha feito a sua performance perfeitamente bem, a sua constituição física em nada tinha que ver com a descrita no livro. Por outro lado a participação do nosso bem Português Joaquim de Almeida suaviza certas vezes o sentimento áspero que a falta de credibilidade de Settle nos entrega, e isso é no mínimo agradável de se sentir, por até agora ter apenas existido um vazio seco e azedo entre mim e Joaquim.

Uma das coisas que eu penso que tenho que deixar bem assente, é que eu sou mais como a música, “I’m a believer”, a que nos cantou a banda Smash Mouth, e por isso acredito que corpos irradiam energia, e que os nossos pensamentos nos podem ditar o nosso destino. E é pela coragem de Mastroianni de adaptar esta obra que eu entrego ainda um sorriso ao filme. Há uma sensibilidade sempre presente, e uma quase suave metáfora envolvente em todos e cada plano que nos suga e imobiliza, ainda que tantas vezes só apeteça pegar no comando e esquecer que foi feita. Mas é uma adaptação que foi importante ser tomada e pegada. E se há mediocridade, nessa mesma mediocridade consegui encontrar um equilíbrio aditivo, uma esperança por assim dizer, e um série de pensamentos profundos.

E eu acredito que isso chega para seguir em frente e aceitar esta adaptação da melhor das formas que se conseguir.

The Celestine Prophecy, USA, 2006. Realização: Armand Mastroianni. Fotografia: R. Michael Givens. Com: Matthew Settle, Thomas Kretschmann, Sarah Wayne Callies. **

sábado, 20 de outubro de 2007

Inside Man, de Spike Lee

Inside Man foi um dos inúmeros policiais norte-americanos que nos apareceram à porta, com enorme alarido e propaganda provinda de um elenco de morte. No entanto é crucial afirmar que se prezou pela coragem de quem se arrisca a cair no tédio de não trazer nada de novo e pela genialidade de conseguir trazer muito mais que isso.

Spike Lee conseguiu em boa verdade trazer aos amantes do cinema um policial interessante e extremamente inteligente, onde se destacam os planos de realização e o elenco fervente que nunca ninguém pensaria poder contracenar com tanto equilíbrio.

É a procura do assalto perfeito que fazem as maravilhas desta realização onde é complicado apontar falhas, e onde o sentimento raquítico e paranóico do pós-11 de Setembro se ironiza perfeitamente numa sociedade Nova Iorquina.

O facto de Lee enveredar por novos campos da realização, contornando o seu optar por realizações mais alternativas, e ao dar-nos esta bastante mais comercial, contribui largamente para a curiosidade que nasce exactamente no poderoso elenco, elenco esse que acaba por ser uma das mais valias do cinema, no meio de poucas mais a acrescentar.

No entanto Jodie Foster conseguiu desiludir-me bastante, pois tendo que representar o papel de uma mulher portadora de uma aura fria e céptica só me deu o sentimento que entrara na sua fase de declínio, o que talvez não seja assim tão verdade (mas que nem o filme que viria mais tarde, Flightplane, me fez desacreditar esse sentimento), o que não lhe calhou nada bem na minha visão, que a detinha como das grandes potências da sétima arte.

Clive Owen, por outro lado tem vindo a soltar faíscas em cada participação, ganhando terreno; nesta obra de Spike Lee é o diamante bruto repleto de ironia e sarcasmo que magoa quem simplesmente enveredar pelo perigoso caminho da audição, que joga na verdade com a beleza do seu soberbo accent. Quando a Washington, nada há a dizer. Maravilhosa é a sua carreira, e continuará a ser.

Assim pode-se dizer que Inside Man é um filme que vale a pena ver, mas sem esperar que seja magnífico ao ponto de se tornar um clássico. Os buracos, esses sim, são muitos deles clássicos e visíveis até a cinéfilos amadores como eu. Deixemos grandes classificações para quem ao invés de focar um bom orçamento focar o desejo de fazer bom cinema.

Secalhar assim valerá mais a pena.

"My bite is much worse than my bark."


Inside Man, USA, 2006. Realização: Spike Lee. Fotografia: Matthew Libatique. Com: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe. ***