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quinta-feira, 19 de junho de 2008

Jumper, de Doug Liman


A visão com que ficamos quando os créditos finais se extinguem, é que durante todo o filme não nos apercebemos realmente do que é importante reter. À medida que as imagens surgem e os sons ensurdecedores embatem no entendimento, a compreensão vai-se esgotando.

Acho que acima de tudo Jumper perde-se na tentativa de se tornar único, ficando pelo caminho e esquecendo-se de si mesmo como ideia que poderia até resultar magistralmente bem. Com nenhuma informação e tão poucas respostas aos porquê? que vai emitindo à medida que a intensidade explode, sobra apenas Jamie Bell.

Mas há dias assim, em que o intelecto precisa de descanso absoluto, e as rajadas de cores e confusão subsistem como um autêntico fôlego.

Aceitável. Apenas quando há necessidade de afogar as exigências em entretenimento. A pergunta agora é: que anda a fazer Liman, e o que deu a Jim Uhls?

Jumper, USA, 2008. Realização: Doug Liman. Fotografia: Barry Peterson. Com: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Diane Lane, Jamie Bell, Rachel Bilson. **

terça-feira, 17 de junho de 2008

Fool's Gold, de Andy Tennant

Sem se querer fazer muito, não se faz muito. Acredito neste lema, como se fosse antes um dilema, uma maldição. O realizador de Hitch, Andy Tennant, aposta agora numa aventura de caça ao tesouro, sem alcançar espaço para respeito. Um desenlace aceitável mas não memorável, transforma Fool's Gold em apenas mais um.

Com um reportório de filmes pouco importantes, Tennant continua sem alcançar um patamar surpreendente ou entusiasmante. Dentro do seu leque de projectos, retirando-se Anna and the King, descobrem-se os restantes tímidos, baços e sem brilho sobrevivente para que se tente arranjar espaço na prateleira. Fui, no entanto, entretida alguns escassos momentos, e algumas gargalhadas foram soltas no processo. Mas como sempre, eu aceito tudo, vindo de onde vier.

Sem se conseguir aproximar do romantismo que procura, Fool's Gold emana sentimentos constantes de descontracção bruta na tentativa de superar qualquer expectativa. Com uma aura fria e desinteressante, há uma sombra constante que não deixa espaço para entretenimento genuíno.

Fool's Gold, USA, 2008. Realização: Andy Tennant. Fotografia: Dun Burgess. Com: Matthew McConaughey, Kate Hudson, Donald Sutherland, Alexis Dziena, Ewen Bremner. **

sábado, 31 de maio de 2008

Blade Runner- The Final Cut, de Ridley Scott

Ainda não me consegui aperceber plenamente do impacto que Blade Runner no grande ecrã teve em mim. Acho tão simples a maneira como abraçei esta ida ao cinema, e foi ainda assim como a primeira vez que o cinema se embrenhou na minha alma. Tão pouco mais consigo dizer, esta forma como o cinema está em mim, ver obras tão magistralmente reconhecidas e descobri-las tão bonitas. Final cut.


Blade Runner Final Cut, USA/Singapore, 2008. Realização: Ridley Scott. Fotografia: Jordan Cronenweth. Com: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah. *****

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Revolver, de Guy Ritchie

Revolver abre-se aos nossos pés a partir do primeiro segundo, a partir da primeira imagem. Com uma fotografia esplenderosa, é um filme marcante que vale a pena ver e rever as vezes que forem precisas para começar a fazer algum sentido, e mesmo depois disso.

Ritchie concentra-se assim a trazer-nos bom cinema bem à maneira que nos foi habituando. O cinema de Ritchie tem charme e poder intenso.

Talvez no final o facto de eu procurar a presença de Jason Statham se ligue directamente com a sua participação nos projectos de Guy Ritchie, e talvez por pouco mais que isso. Mas Jason traduz em gestos a presença que é precisa à figura de Green e através deles algumas das milhares de respostas por que no final vamos ansiar. E Ray Liotta com a melhor representação de sempre em toda a sua carreira, fez-me sorrir, sorrir como em poucos filmes uma só personagem me fez sorrir.

Com uma montagem magnífica, o resultado final é um dos meus projectos preferidos de todos os tempos. Uma banda sonora que lhe cabe melhor que todas as críticas algumas vez escritas, e um dos argumentos mais inteligentes dos últimos anos, Revolver é um obra prima que eu sinto necessidade de guardar em segredo. É negro. Tudo nesta obra é de uma beleza inacreditável.

"The greatest enemy will hide in the last place you would ever look."



Revolver
, França/UK, 2005. Realização: Guy Ritchie. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Com: Jason Statham, Ray Liotta, Vincent Pastore, André Benjamin, Terence Maynard, Tom Wu. *****

domingo, 9 de dezembro de 2007

The Celestine Prophecy, de Armand Mastroianni

The Celestine Prophecy é um livro magnífico. Li-o recentemente, muito recentemente até, e de certa forma mudou a forma como levo as coincidências e a energia que trago dentro de mim, bem como os pensamentos e os sonhos que tenho. E penso que o facto de ter achado o filme que nele se inspirou uma desilusão, não foi coincidência. Teve a sua razão de ser.

Esta adaptação trazida pela mão de Armand Mastroianni o ano passado, não é uma adaptação fiel do belíssimo livro de James Redfield, mas consegue por demasiadas razões tornar-se num filme que vale a pena ver. Mas essa tentativa penso que só deveria vir a seguir a ser lida a obra, porque esta é quem realmente tem de levar os créditos todos.

Armand Mastroianni desfiou os 100 minutos de filme de uma maneira demasiado despreocupada, onde as situações se tornam pesadas facilmente, e onde a não sucessão lógica das cenas nos leva a torcer o sobrolho, a nós quem lemos a obra de Redfield. Porque a linha narrativa do filme não segue a do livro e isso chega para lhe tirar valor que sobra. Muitos planos foram ridiculamente introduzidos, muitas personagens cruciais esquecidas e se a floresta parece complicada, nem esperem para analisar as sequências por Mastroianni escolhidas.

Desta feita, Mastroianni apenas consegue utilizar uma mão cheia de planos meramente nus de originalidade, perspectivas completamente descabidas do ponto de vista da narração e, como já referi, sequências que em nada entregam respeito ao projecto. Pontos fulcrais acerca da história foram inaceitavelmente deixados de lado e o teor anti-religioso tantas vezes sublinhado no livro completamente ridicularizado.

Mas há ainda coisas que é necessário valorizar nesta adaptação, como as belíssimas paisagens nos planos muito gerais, com o desfiar da energia falada na história genuinamente entregue aos efeitos especiais, mas perfeitamente entregue também. Esses não decepcionam de todo a não ser em certa medida, em inícios do filme.

A entrega do papel de Cardeal Sebastian a Hector Elizondo foi das únicas, se não a única escolha de casting bem feita, pois tanto a da personagem principal, Matthew Settle para o papel de John como a de Annabeth Gish para o de Julia foram escolhas que trouxeram o filme 180 graus abaixo do seu rendimento, ainda que Gish tenha feito a sua performance perfeitamente bem, a sua constituição física em nada tinha que ver com a descrita no livro. Por outro lado a participação do nosso bem Português Joaquim de Almeida suaviza certas vezes o sentimento áspero que a falta de credibilidade de Settle nos entrega, e isso é no mínimo agradável de se sentir, por até agora ter apenas existido um vazio seco e azedo entre mim e Joaquim.

Uma das coisas que eu penso que tenho que deixar bem assente, é que eu sou mais como a música, “I’m a believer”, a que nos cantou a banda Smash Mouth, e por isso acredito que corpos irradiam energia, e que os nossos pensamentos nos podem ditar o nosso destino. E é pela coragem de Mastroianni de adaptar esta obra que eu entrego ainda um sorriso ao filme. Há uma sensibilidade sempre presente, e uma quase suave metáfora envolvente em todos e cada plano que nos suga e imobiliza, ainda que tantas vezes só apeteça pegar no comando e esquecer que foi feita. Mas é uma adaptação que foi importante ser tomada e pegada. E se há mediocridade, nessa mesma mediocridade consegui encontrar um equilíbrio aditivo, uma esperança por assim dizer, e um série de pensamentos profundos.

E eu acredito que isso chega para seguir em frente e aceitar esta adaptação da melhor das formas que se conseguir.

The Celestine Prophecy, USA, 2006. Realização: Armand Mastroianni. Fotografia: R. Michael Givens. Com: Matthew Settle, Thomas Kretschmann, Sarah Wayne Callies. **

domingo, 11 de novembro de 2007

Alpha Dog, de Nick Cassavetes

Alpha Dog prometia trazer uma história atractiva e no mínimo curiosa ao recorrer a um elenco júnior que poderíamos eventualmente ver apenas em filmes para adolescentes sem qualquer sentido, mas que foi no entanto muito diferente. A diferença? Ter vindo da mestria do realizador do The Notebook, Nick Cassavetes. E claro pela participação de Bruce Willis e Sharon Stone, como o encaminhar para uma plateia mais lucrativa.

A participação do jovem Emile Hirsch, que veio de um confortável The Girl Next Door, e de Justin Timberlake o cantor do Sexy Back e o autor dos sexy moves do mundo musical, atrairam provavelmente o que se viu ser 80% das audiências mundiais, mas ainda assim nem um nem outro se espalharam ao comprido como eu estava a espera, e isso quase bastou para o filme se tornar um bom filme.

Emile Hirsch
é então Johnny Truelove, um drug dealer bastante moderno, inspirado na figura criminosa de Jesse James Hollywood, e filho de Sonny Truelove, interpretado por Bruce Willis. Cassavetes desfia as já esperadas cenas de crimes de uma forma impressionantemente imaginativa, derivado de um argumento que o próprio criou, e que é provocativo e que é bom sê-lo. Truelove, rodeado de amigos que transpiram a já esperada adolescência no seu lado mais puro e contagiante, vai-se metendo aos poucos e poucos numa aventura que vai acabar por julgar se o seu espírito é realmente anárquico ou se é simplesmente uma perseguição infiel dos passos percorridos pelo pai.

Aí entra Jake e Zack Mazursky, dois irmãos que em tudo se diferem e que no entanto é isso mesmo que os une, interpretados belíssimamente por Ben Foster e Anton Yelchin, sendo que Foster me tem impressionado bastante, e onde Zach se torna a única ponte entre uma amizade que foi envenenada pelo dinheiro.

Alpha dog
vai percorrendo um lado quase virgem do crime hollywoodesco, onde este é contornado e quase exilado num sentimento humano e de amizade antes que seja atingido um clímax onde normalmente tudo se perde. Alpha dog não segue os contornos e parâmetros normais de um policial ou de um filme de acção, porque se divide em partes meramente fúteis e em partes que contêm a importância do coração humano, sem sequer ser pensada uma mistura dessas partes. Pela primeira vez a vítima passa de vítima a herói no seio da sua própria autonomia. Uma vítima acarinhada pelos seus agressores, que exploram inocentemente o seu interior, que abrem caminhos e portas de auto-conhecimento, e que são experiência no meio de terror, que é acima de tudo camuflado em amizade pura e genuína. E é maioritáriamente tudo isto que faz brilhar Alpha Dog, o contraste de um crime com as cores do amor incondicional e ainda assim tantas vezes condicional da família, da amizade e do preconceito.

Nick Cassavetes
largou o salto entre o bom e o mau, e deixou-se cair no abismo esquecido da inocência, do espírito humano e do esquecimento do pulsar negro dentro de nós. E no fim, acorda-nos, para nos deixar bem claro que é um filme que vemos. E isso é realmente o delicioso acerca do filme. Ainda assim não é um filme estrondoso, mas o desfecho torna-o extremamente acarinhável, e quanto a avaliação técnica? Não é preciso. Isso sucumbiu ao maravilhoso plot e ao modo como se desfiou. Mas só para ficar assente não é digno de registo mas é melhor que muitos policiais convencionais que têm passado pelas salas de cinema ultimamente.

"You wanna' know what this is all about? You can say this about drugs or guns or bad decisions, what ever you like. But this whole thing is about parenting. And taking care of your children."


Alpha Dog, USA, 2006. Realização: Nick Cassavetes. Fotografia: Robert Fraisse. Com: Bruce Willis, Emile Hirsch, Justin Timberlake, Anton Yelchin, Ben Foster, Sharon Stone. ****

sábado, 20 de outubro de 2007

Inside Man, de Spike Lee

Inside Man foi um dos inúmeros policiais norte-americanos que nos apareceram à porta, com enorme alarido e propaganda provinda de um elenco de morte. No entanto é crucial afirmar que se prezou pela coragem de quem se arrisca a cair no tédio de não trazer nada de novo e pela genialidade de conseguir trazer muito mais que isso.

Spike Lee conseguiu em boa verdade trazer aos amantes do cinema um policial interessante e extremamente inteligente, onde se destacam os planos de realização e o elenco fervente que nunca ninguém pensaria poder contracenar com tanto equilíbrio.

É a procura do assalto perfeito que fazem as maravilhas desta realização onde é complicado apontar falhas, e onde o sentimento raquítico e paranóico do pós-11 de Setembro se ironiza perfeitamente numa sociedade Nova Iorquina.

O facto de Lee enveredar por novos campos da realização, contornando o seu optar por realizações mais alternativas, e ao dar-nos esta bastante mais comercial, contribui largamente para a curiosidade que nasce exactamente no poderoso elenco, elenco esse que acaba por ser uma das mais valias do cinema, no meio de poucas mais a acrescentar.

No entanto Jodie Foster conseguiu desiludir-me bastante, pois tendo que representar o papel de uma mulher portadora de uma aura fria e céptica só me deu o sentimento que entrara na sua fase de declínio, o que talvez não seja assim tão verdade (mas que nem o filme que viria mais tarde, Flightplane, me fez desacreditar esse sentimento), o que não lhe calhou nada bem na minha visão, que a detinha como das grandes potências da sétima arte.

Clive Owen, por outro lado tem vindo a soltar faíscas em cada participação, ganhando terreno; nesta obra de Spike Lee é o diamante bruto repleto de ironia e sarcasmo que magoa quem simplesmente enveredar pelo perigoso caminho da audição, que joga na verdade com a beleza do seu soberbo accent. Quando a Washington, nada há a dizer. Maravilhosa é a sua carreira, e continuará a ser.

Assim pode-se dizer que Inside Man é um filme que vale a pena ver, mas sem esperar que seja magnífico ao ponto de se tornar um clássico. Os buracos, esses sim, são muitos deles clássicos e visíveis até a cinéfilos amadores como eu. Deixemos grandes classificações para quem ao invés de focar um bom orçamento focar o desejo de fazer bom cinema.

Secalhar assim valerá mais a pena.

"My bite is much worse than my bark."


Inside Man, USA, 2006. Realização: Spike Lee. Fotografia: Matthew Libatique. Com: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe. ***