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quarta-feira, 12 de março de 2008

Cloverfield, de Matt Reeves

Cloverfield poderia ser uma enorme metáfora. Numa noite, como tantas outras, um monstro, como Godzilla já o fez há alguns bons anos atrás, ataca Nova Iorque. Com um visual que acaba por ser, apesar de tão realista, extremamente eficaz, é a prova que a geração Youtube se apoderou por sua vez de Hollywood. Como Godzilla, na sua versão dos anos 50 personificava a segunda grande guerra e o terror da bomba atómica, a produção de J.J. deste novo século representa o 11 de Setembro e a guerra que ainda hoje se trava, bem como os fantasmas que ainda hoje assolam tantas almas em todo o mundo.

O retrato do fim do mundo na perspectiva de um grupo de adolescentes, que o registam por mero acaso, é o mais delicioso. É acima de tudo a ideia chave que suporta um projecto ambicioso que resulta de todas as formas possíveis e imaginárias, mesmo admitindo os seus erros que são, na minha opinião, uma mais valia.

Imagino as dificuldades que foram superadas pelo estilo usado e pelas tantas outras milhares que apareceram por essa mesma causa. Mas na verdade Cloverfield tornou-se logo desde os primeiros minutos e desde as primeira explosões um dos meus filmes de terror preferidos e uns dos mais bem sucedidos de sempre.

Na verdade o impacto que Cloverfield teve em mim foi uma experiência única. Nunca tantos batimentos cardíacos em meio minuto me fizeram sorrir como no dia em que me pus numa sala de cinema e experienciei tanta adrenalina, vertigem e acima de tudo inteligência em tornar versáteis características que noutras situações não o seriam nunca. Com o pânico que ouvimos, e acabamos também por ver, durante 90 minutos, a correria e o facto de nem por um momento a câmara estar fixa, os relances de algo sobrenatural a meio metro acima de nós (sim porque nós estamos irrefutavelmente lá), fizeram de Cloverfield uma das melhores aberturas de ano que eu já experienciei cinematográficamente.

Enquanto que muitos poderão achar a experiência angustiante, outros apanharem, como eu li algures "motion sickness", por mais que existam proclamação de desilusão nas opiniões de espectadores em todo o mundo, Cloverfield não será esquecido porque marcou a pele. Quando saí da sala de cinema fiz uma promessa a mim mesma - Nunca mais saias de casa sem a tua máquina de filmar. Nada foi mais assustador que sabermos ver mais que as próprias personagens, não porque isso é o que acontece normalmente em qualquer filme que faça uso de steadicams, mas porque acabamos inevitavelmente por desejar não ver nada como eles, e correr, correr no escuro de um metropolitano que nunca, e mesmo eles o sabem, os (nos) levará para qualquer lugar seguro.

J.J. Abrams apostou como um sábio e Matt Reeves (re)criou terror como um mestre.

"People are gonna want to know... how it all went down."

Cloverfield, USA, 2008. Realização: Matt Reeves. Fotografia: Michael Bonvillain. Com: Michael Stahl-David, Lizzy Caplan, Jessica Lucas, T.J. Miller. ****

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Alien vs. Predator: Requiem, de Colin e Greg Strause

Com uma das piores iluminações que já alguma vez vi numa fotografia, AVPR é um dos grandes filmes a evitar ver no grande ecrã, se não em qualquer um. Já não bastava ser uma sequela de um filme com uma falta de lógica arrebatadora, torna-se também ainda menos aceitável que o primeiro ao trazer a luta entre duas espécies desconhecidas ao coração de uma cidade Americana. Com um elenco que pouco consegue alcançar os níveis aceitáveis, e um desenvolvimento de luta com pouca originalidade, a premissa que se desenvolve sucumbe à falta de tentativa de tornar o projecto em algo diferente. Talvez, no fim de tudo, a mediocridade na iluminação teve a sua razão. Foi o único filme que alguma vez me fez querer abandonar uma sala de cinema.


"Fuck this Titanic bullshit, no Women and children first!"



Alien vs Predator - Requiem
, AVPR, USA, 2007. Realização: Colin Strause e Greg Strause. Fotografia: Daniel Pearl. Com: Steven Pasquale, Reiko Aylesworth, John Ortiz, Johny Lewis, Ariel Gade, Kristen Hager. 0

sábado, 29 de dezembro de 2007

30 Days of Night, de David Slade

Em 30 Days of Night os vampiros revelam uma faceta mais animalesca, esquecendo o romantismo ao qual progressivamente o grande ecrã nos foi habituando, e fixando-se no mundano e original folclore primitivo do nosferatu, as criaturas da noite. O mais grotesco possível até agora, juntamente com os da saga do 28 days.

Conseguindo ultrapassar o temor que em tempos o próprio drácula estava em posse de oferecer, o bando que se passeia num Alasca nocturno consegue a sua quota parte de êxito, com uma magnífica caracterização de Joe Dunckley, tão habituado a trabalhar com trabalhos de grande envergadura.

Este projecto, produzido por Sam Raimi tinha uma premissa tão prometedora que quase foi impossível não se esperar derrapagens. E quem as esperou não se enganou. O melhor de todos estes minutos de aflição (às tantas não sabemos bem porquê; se pela boa sucessão das coisas, se pela má sucessão que depressa advém) não só chega cedo, como é introdução, mas infelizmente feitas as apresentações das personagens principais a sua aparência torna-se ilusão, escasseia, até desaparecer por completo. Falo claro de Ben Foster, numa magnífica representação.

Sendo mais uma adaptação, desta de uma graphic novel de 2002 da autoria de Steve Niles e Ben Templesmith, o filme de Slade não perde tempo a desenvolver a premissa que empreende (que é talvez o melhor), espremendo-se entre o romance mesquinho entre as personagens principais e cenas de acção que raramente têm êxito. O filme com o tempo vai-se assemelhando mais a um filme de zombies do que propriamente a de criaturas que temem a luz do sol, sendo esse factor com o tempo até esquecido.

O filme falha por muito, mas entretém por tantas outras coisas. Os factos curiosos são preciosos, a falta de luz e a sua intercepção com a realidade geográfica e factual enchem-nos os olhos de expectativa, e se o resto do filme nos desilude fá-lo gradualmente e sem grandes choques.

O elenco é medíocre, mas penso que um melhor só me deixaria ainda mais irritada, porque a liberdade de representação não é muita e sem ela não é fácil nem seguro também avaliar. Ben Foster é o titã de todo o filme, mesmo não sendo uma personagem que a câmara acompanha interminávelmente, é uma presença frucral para o desenvolvimento da acção e não só da acção, do ambiente, do feeling do projecto.

O espaço e o tempo da acção é a novidade que mais arrebata e mais compensa. Mas Slate precariamente o conseguiu manusear.

No entanto a falta de caracterização do ponto de vista do argumento feita aos vampiros foi um ponto a favor, pois mantendo-os longe de se humanizar só os tornou mais convicentes. O que poderia eventualmente ter sido usado ainda mais em favor era a sua ascendência, a razão da sua presença, para além da ausência de luz solar durante 30 dias gelados claro, como se tal não fosse suficiente, e os objectivos que as suas almas primitivas tentavam alcançar. A introdução de um idioma foi, tirando Foster, a parte mais interessante e a que mais valor tem em todo o projecto. O que parece ser uma lingua vinda das florestas profundas da Roménia (digo eu) intensifica o aperto que tem de ficar cada vez que há um vampiro on-screen, ajudando a imortalizá-los.

Assim 30 Days of Night tinha bastante a seu favor para se sobressair um pouco mais. É uma novidade no seu género porque retoma o terror com o instinto e com uma premissa fora do vulgar, mas por outro lado a falta de interesse que as personagens suscitam quase nos obriga ao esquecimento. Só Foster recordo com vivacidade.

Secalhar é injusto tomar o filme assim desta maneira, obrigando-o a ser nada mais nada menos que um melodrama assustador (pouco, mas aceita-se) que nos obriga a ficar em espanto durante quase duas horas inteiras, e sem dar quase ênfase às tentativas feitas e à fé que provavelmente Slade lhe entregou. Mas ainda assim depois de Hard Candy saí desiludida. Gostei como sempre gostei de vampiros, mas não gostei do ponto vista geral. Entreteu mas isso acabou assim que saí da sala. E só me lembrei agora dele porque pensei que já vinha a hora de dar a minha opinião.

David Slade não foi muito longe com esta adaptação, e o que mais me irrita é pensar que
secalhar ele nem queria ir tão longe assim.

"That cold ain't the weather, that's death approaching."


Days of Night, USA, 2007. Realização: David Slade. Fotografia: Jo Willems. Com: Josh Hartnett, Melissa George, Ben Foster, Danny Huston. **

domingo, 2 de dezembro de 2007

Vacancy, de Nimród Antal

Se Kontroll deveria ser um ponto de referência do mestre Nimród Antal, e que o é sem dúvida, Vacancy deveria ser visto como uma ponte, para o que poderá vir. Esperemos, melhor.
Com um teor tão vulgar de terror, com uma oferta pouco inteligente de um rumo a seguir, é de estranhar que Antal tenha conseguido chegar onde quis. E a verdade é que o conseguiu plenamente.

Este é um filme que se transfigura de uns quantos clichés em amostras bastante mais conseguidas disso mesmo, um mergulho de cabeça nas inspirações de outros, conjuntamente com o facto de conseguir ir além do que essas primeiras ideias foram. Mas não deixa de ser um emprestar, digamos assim, de um plot que sempre deixou e sempre deixará muito a desejar.
Eu, como amante do terror tive de o ver fosse qual fosse o lado das opiniões dos mais aclamados críticos, e vi-o ainda em terras do Tio Sam. Mas se por um lado me acabou por entreter, por outro tornou-se também desconfortável através de faltas e exageros.

A claustrofobia, as sombras constantes, o batimento cardíaco e a sequência entusiasta de planos devidamente equilibrados para um determinado efeito, acabam por fazer parte do entretenimento agradável que se retém ao longo dos totais 85 minutos de filme. O elenco é claramente outras das razões da crítica se encontrar sensivelmente do lado positivo acerca de todos os aspectos do filme. O pior? Pouco, talvez mesmo seja o facto de passado já algum tempo de o ter visto, me seja mais complicado fazer uma crítica aprofundada, e juntando a esse facto o de que eu acho que mesmo que o tivesse acabado de ver novamente o problema se mantivesse.

Resumindo, Vacancy é um filme de terror que não traz muito mais do que os demais que nos chegaram recentemente como o The Hitcher ou o segundo Hostel, mas que se consegue manter acima desses pela maneira como Antal conseguiu espalhar mais do que uma sequência de planos meramente pesados e gores para se basear num ambiente simples de terror infantil, de encurralamento e correria constante. Um ou outro "I don't care anymore, I love you", aparecem para suavizar uma necessidade constante de alcançar o negro do alma humana, o terror emerso no lado obscuro da sagacidade humana, animal, e acaba por entregar uma constante correspondência com clássicos que sempre ficaram e que não passarão nunca. Falo claro está de Psycho.

No fundo acho que Vacancy é mais um dos que fazem parte de um enorme rolo de situações dramáticas de que os Estados Unidos se tem mostrado tão necessitado, mas que vai além do que se espera integrando-se numa necessidade de encontrar emoções humanas nas mais profundas desumanas acções. O plot recai num desconhecer do seu próprio rumo e muitos dos diálogos entregam-nos sensações que não deveriam ser sentidas, mas Vacancy ultrapassa as nossas expectativas de uma maneira que por exemplo, o Hostel de Roth nunca ultrapassou. Serenamente.

E às vezes ultrapassá-las é o suficiente.

Vacancy, USA, 2007. Realização: Nimród Antal. Fotografia: Andrzej Sekula. Com: Kate Beckinsale, Luke Wilson, Frank Whaley, Ethan Embry. ***

domingo, 21 de outubro de 2007

Children of the Corn, de Fritz Kiersch


Stephen
é, com quase toda a certeza, o escritor que mais obras tem adaptadas para a grande tela desde sempre. De Carrie, a The Green Mile, até ao mais recente 1408, as suas adaptações dividem-se em adaptações de short stories e de narrativas mais complexas e são (na maioria das vezes) eficazes na sua transformação para argumento.

Children of the Corn, veio alguns anos antes de eu nascer, e desde sempre esteve na minha lista dos must see, pela minha paixão pelo género do terror. Um clássico chamam-lhe alguns; e é um belíssimo clássico acrescento.

A narrativa, feita por um dos miúdos intérpretes, Job, e que tão tristemente constatei que deixou o mundo do cinema alguns anos depois deste Children of the Corn, é passada nos arredores e na rural vila Gatlin, num Nebraska Americano. A chegada de um líder religioso que pouco mais tem que palmo e meio, Isaac, leva as crianças a matar todos os adultos e a enterrá-los nos campos de milho através da palavra de uma entidade, "He Who Walks Behind the Rows". Três anos depois, a pequena vila está entregue a estes pequenos assassinos, e a dois pequenos irmãos, Job e Sarah, que sem nada poderem fazer assistem à morte do pai. Vão ser os únicos que não seguem o ensinamento de Isaac e do seu culto satânico. Sarah por sua vez tem um dom, a arte de prever o futuro através de desenhos a lápis de cera. Deliciosamente petrificante.

Todos que possam vir a perturbar este fenónemo juvenil (todos os adultos, diga-se) são aniquilados por bandos de crianças devotas.

Não há qualquer oportunidade para sentirmos qualquer ligação com qualquer um dos adultos, para de facto amaldiçoarmos Isaac e o seu mais forte seguidor sangrento, Malachai, até ao aparecimento de Burt e Vichy, interpretados por Peter Horton e Linda Hamilton, um casal que se encontra nas imediações e que por alguma razão (clássico!) tem de passar por Gatlin. O restante é uma das mais macabras histórias adaptadas para o grande ecrã.

Ao se aperceberam que algo de muito estranho se estava a passar (ao embaterem no corpo de um míudo que estava já morto alguns minutos antes), são arrastados para a febre, pânico e ironia de tremerem com a presença de meras crianças. Bem, meras facas, e sabres e ganchos de feno também entram.

É bom encontrar filmes que mesmo não se prezando pelo primor fotográfico se tornam filmes que recordamos por anos e que queremos por qualquer razão ter na prateleira. É um filme que é importante ser visto para quem gosta do género mais não seja porque o jovem Malachai (ou seria Courtney Gains?) vale por quase todos os minutos do filme.

Foi delicioso ver Horton a correr por uma vila abandonada perseguido por pequenos demónios ao som da musica estonteante de Jonathan Elias e dos gritos arrepiantes dos "Kill! Kill! Kill!" como compasso.
Alguns efeitos especiais são também dignos de referência porque se não são magníficos são, por outro lado, de uma simplicidade tal que nos faz sorrir e aceitá-los como se proviessem de um qualquer George Lucas. Aparece então a criatura. O chão do milheiral a elevar-se qual toupeira, ou a plantação a oscilar para dar passagem a quem quiser atravessar, e mesmo o céu e as nuvens a metamorfosearem-se em algo demoníaco, dão ao filme o toque necessário para ficarmos satisfeitos com esta adaptação de Fritz Kiersch.

Quanto às interpretações, o melhor para mim foi como já referi a representação de Courtney Gains na pele de Malachai, o tenebroso libertino que se ao início traz uma devoção em si, logo a esquece pela sua sede de sangue e terror. É quase sempre tão eficaz que suspiramos de alívio no final por não haver quase nenhuns erros de casting.

Por sua vez John Franklin como Isaac é bom na medida em que no papel que representa não haver espaço para grandes falhas ou grandes alternativas. Só aquele olhar nos primeiros minutos de filme, chega para o resto. Já os irmãos Job e Sarah são maravilhosos e poderiam ser aspirantes a grandes revelações, mas demonstram também uma certa falta de experiência que algumas vezes magoa o filme. Só mesmo o podemos esquecer pelos papéis que representam.

E por fim o casal é a meu ver a dupla do filme, não porque são de facto um casal mas porque contracenam com um equílibrio que eu nunca vi em mais nenhuma produção até hoje. Estão tão imersos nas suas personagens que oferecem outro valor ao filme. São tão convincentes naquilo que nos dão que vale a pena ver o filme só para os ver contracenar juntos. Muitos dos actores que vemos hoje deveriam ver Children of the Corn e ver se aprendem qualquer coisinha.

O pior? Muito pouco. Há talvez um ou outro buraco que por não ser assim tão grande nos faz ainda baixar os olhos com uma pontada de desilusão; a imagem de Burt a correr desenfreadamente uns quantos quilómetros com uma facada no peito, não me sai da cabeça. Mas não é a razão para exageros.

Era um must see para mim, agora é um must have. Um dos clássicos de terror mais maravilhosos de sempre. Se um low budget consegue fazer isto há 23 anos, como é possível que hoje em dia se façam atrocidades medíocres e inadmissíveis.

Por minha vez, ao menos agora já tenho uma desculpa para não gostar de milho.

"We want to give you Peace."

Children of the Corn, USA, 1984. Realização: Fritz Kiersch. Fotografia: Raoul Lomas. Com: Peter Horton, Linda Hamilton, Courtney Gains, John Franklin. ***

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

1408, de Mikael Håfström

John Cusack é singular. A particularidade da sua representação é o facto de não ter particularidade alguma, os pólos são opostos, não há um padrão de género de representação e o que esperar é, na medida das coisas, sempre algo alternativo.
Neste cartaz contamos com a presença de Cusack tanto em 1408, saído nos Estados Unidos ainda este ano, como em The Contract de Bruce Beresford estreado já o ano passado, e que só agora nos ocupa as salas de cinema Portuguesas.
Mas falando apenas do que posso avaliar sem dúvidas, falo do thriller psicológico que só Stephen King nos poderia trazer, 1408. Quando as imagens começam a inundar a tela, as atenções dividem-se entre aqueles que conhecem a obra de King e entre aqueles que conhecem a obra por alto, ou que não conhecem de todo.

John Cusack interpreta, nesta adaptação do mestre do terror, Mike Eslin, um escritor de histórias de fantasmas e aparições paranormais, em que a única coisa em que consegue acreditar é em si próprio. O seu brutal cepticismo é reabastecido pelas buscas que encontram vazios constantemente, e vamos desdobrando cada folha da sua história com paciência redobrada revelando o seu passado e apercebendo-nos do porquê de uma mente estar tão alojada em descrença e conformismo.

Se por um lado o filme poderia ter chegado ao desequilíbrio e a uma teia desinteressante em que o elenco é reduzido a uma pessoa durante quase uma hora e meia, na verdade foi o factor de haver uma só pessoa entregue à claustrofobia sufocante de um quarto de hotel no 14º andar que acabou por entregar um dos melhores feelings que se pode sentir ao ver 1408. A partir do momento em que ele se entrega à loucura, nós à loucura nos entregamos. Às tantas o The Shining e o seu isolado hotel Overlook sucumbem no pânico que o quarto número 1408 do hotel Dolphin da cidade de Nova Iorque grita em cada poro de Eslin, parecendo-se de repente com um motel barato.

Cusack surpreende, e penso que este é um filme que poderá fazer jus à sua imortalização como actor. Por seu lado Samuel L. Jackson é o toque de midas que torna a prata em ouro, e isto porque sendo tão poucas as cenas em que faz a sua aparência, e essas em relutante ordem de seguimento, torna-se crucial para o jogo claustrofóbico começar, e com ele o plot assustador. Antes disso nada no filme de Mikael Håfström assusta. Jackson acaba por mais do que informar Eslin das forças maléficas que existem no quarto, convence-nos também a nós expectadores que cenas muito maléficas vão aparecer aos molhos aí por diante.
Provindo de uma história curta de Stephen King, Håfström fez a meu ver um excelente trabalho em tornar um história de pequena a um filme de 94 minutos muito bem estruturados. Para além de se ter esmerado numa realização que a meu ver quase não tem falhas, apercebeu-se que um trabalho de terror para ser bom não há uma necessidade de cenas gore e sangrentas, ou de monstros on-camera e close-ups desnecessários que tanto são empregues nos últimos filmes de terror que tenho visto. Novamente, desnecessariamente.

A única coisa a apontar a meu ver é que o sentimento que penso Håfström quis alternar constantemente, aquele da vida após a morte ou de espectros presos e destinados a amaldiçoar o lugar da morte, esse sentimento não colou da maneira que penso que ele queria que colasse. Não magoa o filme de todo, mas por outro lado não ficamos a pensar no filme de uma maneira especial, como se houvesse uma moral fundamental e importante. Neste filme há uma vertigem e claustrofobia constantes, o esgar de medo que quase magoa os maxilares e uma respiração sustida a cada segundo que se ouve mais do que o gravador de Eslin a gravar.

"No one lasts more than an hour."


1408, USA, 2007. Realização: Mikael Håfström. Fotografia: Benoît Delhomme. Com: John Cusack, Samuel L. Jackson. ***